06/11/2009
Barcelona chega ao fim, a 30 dias da COP

Terminou hoje, em Barcelona, a última reunião oficial antes da 15ª Conferência das Partes, da ONU, que acontece entre 7 e 18 de dezembro, em Copenhague. No briefing que fez à imprensa, o secrétário executivo da Convevção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, Yvo de Boer, afirmou que os governos têm condições de selar um acordo climático forte em Copenhague, no próximo mês e que envolva:

- o comprometimento ambicioso das nações industrializadas em cortar suas emissões de carbono até 2020 e
- dos países em desenvolvimento para limitar seu crescimento de emissões e ainda
- a criação de um fundo financeiro a curto e a longo prazo com recursos dos países ricos e
- de uma estrutura equitativa para gerenciar e distribuir o dinheiro.

“Nada mudou minha confiança nisso”, enfatizou o secretário. De Boer ainda disse que espera, particularmente, dos Estados Unidos uma meta numérica clara de redução de emissões e afirmou ainda que os representantes norteamericanos dão sinais claros de que isso pode ser feito.

O secretário também deseja que os países ricos definam quanto em termos de recursos financeiros vão destinar aos fundos de curto e longo prazo e que haja ações rápidas também no mundo em desenvolvimento. Os mecanismos de transferência de tecnologias também começaram a ser estruturados em Barcelona

Em relação ao REDD – Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, as discussões caminham para que o mecanismo seja implementado em diferentes fases e os países ainda discutem as opções financeiras referentes a esse instrumento.

Yvo de Boer alertou que a COP-15 deve ser concluída com um acordo que coloque todas as partes do Mapa do Caminho de Bali em operação.

Sobre a polêmica em relação à continuidade do Protocolo de Kyoto, que ficou evidente no encontro de Bangkok, o secretário disse que, por enquanto, este é o único documento legal que temos em termos de compromissos internacionais em relação ao clima redução de gases de efeito estufa e, portanto, não podemos abrir mão deles.

De Boer concluiu dizendo que, depois de Copenhague, “talking action” (discurso para a ação) deve ser transformado em “taking action” (agir, de fato).

03/11/2009
Gestão do lixo na ecovila
Assunto básico, não? E, para quem mora numa ecovila, ainda mais, certo? Mas nem por isso o tema deixa de ser complicado, especialmente quando se trata de zona rural, desprovida do serviço municipal de coleta de lixo. E esse é o caso da Ecovila Clareando. A prefeitura não recolhe o lixo gerado pela comunidade. É preciso levar os resíduos até a cidade.

Antes, porém, o mais correto é separar os orgânicos dos recicláveis e não recicláveis. Ingenuamente, pensei que seria algo simples de fazer numa comunidade com intenção de ser um laboratório dos princípios e práticas da Agenda 21. Mas não, até porque só o fato de morar numa ecovila não faz de ninguém um ambientalista, ecologista, consumidor consciente ou outro termo do gênero. É preciso mudar hábitos e isso exige vontade, prática constante e persistência.

Para os orgânicos, ando fazendo campanha para a adoção de composteiras e minhocários domésticos. São soluções simples, de fácil manutenção e que garantem composto de boa qualidade para a horta, os pomares e as plantas das calçadas da ecovila. Como na permacultura, o que era problema vira solução: mais adubo e menos lixo.

Já os recicláveis precisam ser separados adequadamente e devem estar limpos para evitar bichos e a contaminação dos materiais. Daí, não tem jeito: cada um precisa estar consciente do problema que é gerar lixo sem ter gestão adequada. E é no dia a dia, a cada instante, que o desafio nos é apresentado. Não dá para negligenciar. Já simplificar é sempre bom. Então, num primeiro momento, não vamos nem pensar em exigir que a separação ocorra por tipo de material. Basta separar os orgânicos dos recicláveis.

Por enquanto, temos um amigo voluntário, o Zé Carlos, que se prontificou a levar os recicláveis para uma cooperativa em Barueri, onde ele mora atualmente. O lixo produzido pelas famílias tem sido encaminhado para lá a cada 15 dias. Ainda não temos a adesão de todos os moradores, é verdade. Mas espero reverter isso, com um diálogo suave e franco, em pouco tempo...

Dia desses, um casal de amigos que já mora na ecovila descobriu um local em Piracaia que recebe materiais recicláveis. Vamos pesquisar direitinho como é o trabalho dessa empresa (ou cooperativa, não sei bem) e checar o destino que dão aos resíduos, para ver se podemos diminuir o percurso dos recicláveis da ecovila - e, assim, resolver a questão localmente.

Com toda essa história, fico pensando no quanto estamos acostumados a empurrar nossas responsabilidades para terceiros. Na cidade, se o lixo fica na nossa porta o problema é da prefeitura. Depois que ele é levado embora, tudo parece resolvido – quando, na verdade, na maioria dos municípios brasileiros o lixo é apenas acumulado em lixões a céu aberto, sem qualquer licença ambiental, contaminando o solo e os lençóis freáticos.

Quando a infraestrutura não existe, no entanto, somos obrigados a tomar a frente da situação. Numa visão mais otimista, seria uma espécie de convite a uma atitude menos passiva, apática. No fundo, acho até bom que a prefeitura não recolha o lixo da ecovila. É um jeito de nos fazer refletir sobre o assunto. Do contrário, seria como dar descarga no banheiro: os resíduos somem como num passe de mágica e tudo parece limpo, lindo e resolvido. Sabemos que não é bem assim...

Foto: com a ajuda das amigas Aluá e Elioenai, a parede de garrafas recicladas na minha casa ficou linda sobre o telhado verde! Mais uma prova de que separar materiais recicláveis vale muuuuito...

04/11/2009
O truco do clima

É como diz o Gaines Campbell, da ONG Vitae Civillis: a negociação do clima parece briga de criança. Eu não entendo da arte da diplomacia, mas justamente por isso é importante mostrar como a coisa toda parece bizarra do ponto de vista do cidadão médio, que é o ponto de vista do bom senso.

“Eu não vou fazer enquanto os outros não fizerem” resume a posição de quase todos os países relevantes para a negociação internacional. O Brasil não é exceção. E se alguém piscasse primeiro? O meu pobre raciocínio indica que a apresentação de um compromisso concreto e ambicioso por parte de qualquer um dos países importantes levaria a um constrangimento para os demais, que só ajudaria a empurrar um acordo pra frente. Para os anais da história, ficariam os líderes heróis.

A análise de Fernando Rodrigues, publicada hoje na Folha, corrobora esse meu raciocínio. Mas Rodrigues aponta que não interessa ao Brasil constranger os demais países emergentes, especialmente porque continuamos na eterna busca de apoio para aquele assento no Conselho de Segurança da ONU...

Eu acho que nós aqui debaixo do sol, bem longe do Olimpo diplomático internacional, é que estamos com o papo furado. Falamos tanto em “liderança mundial”, “momento histórico”, “oportunidade única”, mas nenhum dos líderes mundiais parece muito interessado nessa conversa, nessa tal oportunidade.

Sem metas ambiciosas, o Brasil caminha para apresentar, no máximo, a proposta de reduzir em 80% o desmatamento da Amazônia até 2020. E mesmo assim, sabe-se lá como vamos alcançar esse objetivo.

O presidente assina um decreto para punir o desmatamento ilegal (que deveria entrar em vigor este mês). Aí vêm os ruralistas para tentar aprovar uma anistia, antes de a nova regra entrar em vigor. Pois se o governo não conseguir sequer fazer valer um decreto presidencial, como vai emplacar essa queda dramática no desmatamento?

06/11/2009
Meio elástico
Gosto de ver como as boas idéias e intenções parecem reverberar pelo mundo quando simplesmente pensamos nelas, ou falamos, ou escrevemos e, principalmente, quando discutimos boas práticas e atitudes. O som que se propaga de nossas vozes pode acabar numa curta distância, mas com certeza aquela mensagem e energia vai viajando, viajando, até que encontra uma mente brilhante que resolve transformar uma simples idéia em atitude.

Digo isso porque amiúde vou enxergando mudanças positivas nas atitudes das pessoas, das empresas, etc... Acredito que, de tanto martelarmos esses assuntos, pouco a pouco eles vão chegando e se instalando no subconsciente das pessoas para virarem realidade um dia.

Vamos lá, explicando um pouco. No meu último post, sobre o Scarab, duas pessoas fizeram um comentário que me chamou a atenção quando os li. E achei ainda mais interessante quando relacionei os comentários a um projeto que tive o prazer de conhecer.

Nesses dois comentários, da Mel e do Josuéliton, eles se disseram que o caminho é a educação. E a Mel ainda frisou que é necessário conscientizar as pessoas, mas que os adultos parece ser mais complicado. Ou seja, o foco é a educação. E educação para crianças, que serão as responsáveis por transformar o futuro do planeta.

Semana retrasada fui convidado pela Tetra Pak para participar do pré-lançamento do Portal Cultura Ambiental nas Escolas. O Portal é parte de um programa desenvolvido pela Tetra Pak para levar às escolas primárias um pouco da educação ambiental. Tudo começou com um kit educativo aos professores das escolas do país. Hoje transformou-se num portal, que promete auxiliar alunos e professores a desvendarem dúvidas a respeito do meio ambiente, com um foco bastante voltado para reciclagem. Nesse portal é possível ter acesso a jogos educativos e materiais que poderão ser adotados pelos professores em aulas práticas.

Ou seja, quanto tempo será que a Mel, o Josuéliton, você, eu e tantas outras pessoas pensam em projetos e meios para educar crianças, que têm suas mentes tão fresquinhas a novas idéias? Podemos ficar felizes e comemorar porque essas idéias foram reverberando até encontrar alguém que colocou na prática.

Dá um click lá no www.culturaambientalnasescolas.com.br. De cara já há um video que explica com mais detalhes o projeto. Conheça, explore e espalhe!

Alexandre Almeida
05/11/2009
O vendedor e as ideias para a Bienal
Os alemães, sempre muito atentos aonde vão e sempre procurando preparar tudo, costumam pesquisar bastante e preparar muito bem aonde vão. Para a viagem a São Paulo, à atual Bienal Internacional de Arquitetura, não é diferente. Em guias de viagem e por meio de relatos, foram informados de que a Vila Madalena é um dinâmico e interessante bairro com uma enorme oferta de bares, clubes e restaurantes. Quiseram, naturalmente, ir para um deles, em um dos escassos momentos reservados para se conhecer a cidade. Pude acompanhá-los nessa visita: fomos para a Vila e lá encontramos o Mauro.

O Mauro é um vendedor de rua de bebidas que, aos domingos, estaciona seu carro gratuitamente em uma vaga na rua Girassol – exatamente lá onde particulares pagam, via de regra, 14 reais para deixarem seus veículos em estacionamentos improvisados e valets. Daquele ponto da rua, maneja sua mesa de trabalho montada sobre sua calçada e apoiada no próprio carro. Cabelos curtos encaracolados, olhos verdes, boa pinta, boa conversa.

Aos clientes, Mauro apresenta as batidas sempre na mesma ordem, do garrafão da esquerda para a da direita: morango com goiaba, maracujá, espanhola e abacaxi com hortelã. A apresentação da batida de maracujá merece sempre a observação de que é fruta de verdade. O resto da mesa é dominado por uma irregularidade na disposição de vidros, balde de gelo e área de trabalho. O porta-malas é tomado por um isopor gigante com latas de energéticos, cerveja e refrigerante.

Quem cuida do isopor é o primo. O filho (segundo ele, um dos quatro) toma conta de tudo, na companhia de um amigo. Do outro lado da rua, também atrás de uma barraca, está o irmão, um tipo que se dispõe a abandonar o que está fazendo para buscar a informação de onde acontecerá um show de rap na zona oeste da cidade. Mauro fica rodeado de gente de confiança, da família, que aparece quando o trabalho é muito. Mauro age em rede.

E age sem pressa, sabendo negociar. Ficamos meia hora por ali, só esperando a preparação das sete caipirinhas com o prometido desconto de 20%. Todos estavam com os olhos grandes em cima de seu processo de trabalho. Primeiro, descascou uma laranja e disse que seria para compensar a acidez do limão. Depois, abriu a garrafa de vodca para misturar à fazer caipirinhas. Aqueles alemães que tinham alguma noção de o que estavam pedindo ficaram confusos. Laranja e vodca em limonada? Terminada a terceira caipirinha, ele começa a enfeitar um abacaxi. “Vou ser sincero com você: esqueci a garrafa de pinga em casa...”

Samba e pagode ao vivo e a cores, gente que toma a rua e o estande, o carro, o comércio, a conversa do Mauro como ponto central. Algo bem diferente para quem associava Vila Madalena a descolados lugares fechados, como boteco ou restaurante.

Um estudante logo percebeu que a experiência com o Mauro trazia vários insights para compreender a formação do espaço urbano no Brasil. Informalidade, improviso, criatividade, despojamento, comunicação, flexibilidade...

Hoje fomos visitar favelas, áreas de ocupação e conjuntos habitacionais em Diadema. O modelo Mauro valeu a pena.
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