05/11/2009 às 23:54
Os alemães, sempre muito atentos aonde vão e sempre procurando preparar tudo, costumam pesquisar bastante e preparar muito bem aonde vão. Para a viagem a São Paulo, à atual Bienal Internacional de Arquitetura, não é diferente. Em guias de viagem e por meio de relatos, foram informados de que a Vila Madalena é um dinâmico e interessante bairro com uma enorme oferta de bares, clubes e restaurantes. Quiseram, naturalmente, ir para um deles, em um dos escassos momentos reservados para se conhecer a cidade. Pude acompanhá-los nessa visita: fomos para a Vila e lá encontramos o Mauro.
O Mauro é um vendedor de rua de bebidas que, aos domingos, estaciona seu carro gratuitamente em uma vaga na rua Girassol – exatamente lá onde particulares pagam, via de regra, 14 reais para deixarem seus veículos em estacionamentos improvisados e valets. Daquele ponto da rua, maneja sua mesa de trabalho montada sobre sua calçada e apoiada no próprio carro. Cabelos curtos encaracolados, olhos verdes, boa pinta, boa conversa.
Aos clientes, Mauro apresenta as batidas sempre na mesma ordem, do garrafão da esquerda para a da direita: morango com goiaba, maracujá, espanhola e abacaxi com hortelã. A apresentação da batida de maracujá merece sempre a observação de que é fruta de verdade. O resto da mesa é dominado por uma irregularidade na disposição de vidros, balde de gelo e área de trabalho. O porta-malas é tomado por um isopor gigante com latas de energéticos, cerveja e refrigerante.
Quem cuida do isopor é o primo. O filho (segundo ele, um dos quatro) toma conta de tudo, na companhia de um amigo. Do outro lado da rua, também atrás de uma barraca, está o irmão, um tipo que se dispõe a abandonar o que está fazendo para buscar a informação de onde acontecerá um show de rap na zona oeste da cidade. Mauro fica rodeado de gente de confiança, da família, que aparece quando o trabalho é muito. Mauro age em rede.
E age sem pressa, sabendo negociar. Ficamos meia hora por ali, só esperando a preparação das sete caipirinhas com o prometido desconto de 20%. Todos estavam com os olhos grandes em cima de seu processo de trabalho. Primeiro, descascou uma laranja e disse que seria para compensar a acidez do limão. Depois, abriu a garrafa de vodca para misturar à fazer caipirinhas. Aqueles alemães que tinham alguma noção de o que estavam pedindo ficaram confusos. Laranja e vodca em limonada? Terminada a terceira caipirinha, ele começa a enfeitar um abacaxi. “Vou ser sincero com você: esqueci a garrafa de pinga em casa...”
Samba e pagode ao vivo e a cores, gente que toma a rua e o estande, o carro, o comércio, a conversa do Mauro como ponto central. Algo bem diferente para quem associava Vila Madalena a descolados lugares fechados, como boteco ou restaurante.
Um estudante logo percebeu que a experiência com o Mauro trazia vários insights para compreender a formação do espaço urbano no Brasil. Informalidade, improviso, criatividade, despojamento, comunicação, flexibilidade...
Hoje fomos visitar favelas, áreas de ocupação e conjuntos habitacionais em Diadema. O modelo Mauro valeu a pena.
29/10/2009 às 10:00

Um misto de acaso, posicionamento estratégico e o jogo de afinidades e contrastes entre dois países vai me levar das salas de aula de Hamburgo para as ruas de Diadema e para a Marquise do Ibirapuera.
Alemanha e Brasil vivem faces opostas do planejamento urbano: de um lado, sobram profissionais que lutam por um espacinho em um mercado de trabalho saturado. Sobre espaços concretamente planejados, atua um emaranhado de instituições com foco em múltiplos temas e escalas. De outro, a demanda real (por moradia, por transporte, por saneamento básico...) é enorme, mas pode-se dizer que a profissão – esmagada entre ocupantes de uma burocracia, a classe de arquitetos e atores do processo político – não existe. Planejamento urbano no Brasil foi, por muito tempo, ficção. Hoje é uma colagem de leis, projetos e ideais que se metamorfoseiam e tentam preparar o país para os desafios que ganham volume.
Mas não é fácil
traduzir para o alemão aquilo que em alemão não existe. Meus últimos seminários e trabalhos focam os problemas urbanos brasileiros com o pano de fundo da inexistência de um sistema de planejamento. Na
universidade, verso sobre cicloativistas e as chances de um planejamento comunicativo em São Paulo ou a impossibilidade de um planejamento urbano democrático sob a dominação ilegal de territórios e conflito armado, como no Rio de Janeiro atualmente. Desde que comecei meus estudos, também procuro traduzir as informações que recebo aqui para a realidade brasileira. O
Pra lá e pra cá documenta e testemunha boa parte desse processo.
Talvez tenha sido a dificuldade dessa tradução que chamou a atenção de um professor e de seu assistente. Eles me convidaram para acompanhar a comitiva alemã que fará uma contribuição na
Bienal Internacional de Arquitetura, que acontece de 31 de outubro a 6 de dezembro. A proposta dos alemães é discutir a
“cidade para todos”, tema que acho bem apropriado. No Brasil, esses arquitetos e planejadores discutirão propostas concretas para a Serraria, bairro de uma das mais densamente povoadas cidades brasileiras:
Diadema. (Será Diadema de fato lugar de uma cidade para todos?)
Da Alemanha, eles trazem uma
caixa de ferramentas urbanísticas, isto é, um conjunto de processos e projetos com exemplares resultados sócio-espaciais e culturais, e que podem ter bom uso no Brasil, dependendo da realidade que for encontrada. Eu já dei uma espiada nessa caixa de ferramentas. Sei que dentro dela estão muitos processos auto-gestados, iniciativas populares, muita participação da população, projetos de requalificação do espaço público, conquista de áreas verdes, estruturação de cooperativas e circuitos econômicos alternativos e muito mais. Ferramentas efetivamente importantes para a modelação do espaço das cidades brasileiras.
O objetivo da
IBA Hamburg - organização que venceu o concurso organizado pelo governo alemão para coordenar a participação alemã na Bienal - é apoiar a
tranferência de tecnologia urbanística e fomentar um tipo de intercâmbio que não se esgota com o fim da exposição. Em 2010, estudantes de arquitetura e urbanismo de universidades brasileiras serão convidados para visitar Hamburgo e conhecer projetos em andamento.
Para o
Pra lá e pra cá, esse projeto soa bastante interessante: Diadema é uma cidade rasgada ao meio pela Rodovia dos Imigrantes. A própria conclusão do trecho sul do Rodoanel deve mudar estruturalmente as condições de deslocamento em Diadema. Registros de experiências e propostas para a mobilidade urbana que surgirão nessa missão serão publicados nesse blog ao longo da Bienal.
Foto: Construção de ponte no trecho sul do rodoanel de São Paulo (Divulgação)
22/10/2009 às 18:32

A pesquisa de
Marcelo Lopes de Souza tem procurado respostas a essa pergunta e indicado caminhos bem interessantes. O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro acredita que a boa política urbana é aquela que aumenta a liberdade dos cidadãos. E os bons cidadãos não esperam soluções vindas do Estado, mas fazem parte de "uma esfera pública dotada de vitalidade", como escreve no livro "Mudar a cidade" - obra que já havia citado
em outra ocasião.
Condomínios exclusivos, o fechamento de ruas públicas, a induzida segregação das classes sociais menos abastadas em favelas, o domínio de traficantes sobre amplas partes do território urbano: esses são sinais de que os moradores de cidades brasileiras estão perdendo liberdade e qualidade de vida. Seria necessário refundar a democracia, a partir de uma compreensão "autonomista" de planejamento urbano, na qual movimentos sociais e ativismos desempenham um papel fundamental.
Abaixo seguem os melhores trechos da entrevista realizada por e-mail.
Em sua opinião, quais bons projetos para o desenvolvimento urbano estão em curso no Brasil atualmente?Não vejo, atualmente, nada que eu considere muito animador. A atual conjuntura (diferentemente da dos anos 90) tem sido de uma enorme mediocridade. É claro que estou fazendo uma apreciação “no atacado”. E, mesmo enquanto coisas pontuais, não vejo nada que me suscite um “oh! Que bela experiência!”. É um período, por assim dizer, de “entressafra”... Eu bem que gostaria de dar alguns bons exemplos, mas a única coisa honesta é, no meu entendimento, sublinhar a necessidade de, pelo menos, se construir uma nova conjuntura.
Como implantar um projeto de planejamento urbano autonomista em uma sociedade altamente desigual, como a brasileira?Não se trata de implantar propriamente um “projeto” (em sentido técnico estrito), mas sim de desencadear um processo. Sem movimentos sociais importantes e com capacidade de mobilização, isso não existirá. Isso pressupõe coisas como a capacidade de organizações da sociedade civil de promoverem iniciativas consistentes em matéria de desalienação/conscientização, construção de circuitos econômicos alternativos (independentemente do Estado, na medida do possível) etc. Não há receita para isso. Há indícios e evidências de que movimentos autogestionários estão surgindo, no Brasil e em outros países, desde os anos 90; é o que tenho chamado de a “nova geração” dos “novos movimentos sociais”. Podemos, perfeitamente, caminhar cada vez mais para um aprofundamento da sociedade disciplinar e de controle, em que cada vez mais gente estará disposta a abrir mão não apenas da sua privacidade, mas sim de várias liberdades, em nome da “segurança”, estando a “insegurança” relacionada, em larga medida, com a manutenção e o aprofundamento dos fossos econômico-sociais e social-psicológicos. Mas é possível que, exatamente em função da crise, respostas emancipatórias continuem a emergir, tornando-se mais fortes e influentes. A história dirá.
Ativistas e movimentos sociais também podem mais atrapalhar do que contribuir para o planejamento urbano em uma perspectiva autonomista?É lógico que, por um lado, organizações de movimentos sociais não são infalíveis, e, por muitas razões, erros podem ser cometidos. Além do mais, elas não são todas iguais: existem organizações mais “horizontais” (e até mesmo autogestionárias), enquanto que outras são bastante “verticais” (hierárquicas, centralistas)... O que desejo ressaltar é que, no meu entendimento, a iniciativa de transformações emancipatórias realmente substanciais haverá de ser, basicamente, de movimentos sociais e não do Estado, ainda que, por razões pragmáticas, seja muito importante, para os próprios movimentos, aproveitar a margem de manobra propiciada por certas iniciativas estatais.
Cabe sempre ao mercado um papel nocivo no processo de planejamento urbano? O que se tem visto, como “parceria público-privado”, em matéria de aliança entre o Estado e o capital privado, é uma exacerbação do que, do meu ponto de vista, sempre houve: o Estado socializa custos e realiza investimentos que, depois, darão origem a ganhos largamente capturados de forma privatizada e “oligarquizada”. E isso tem sido assim nos EUA, no Brasil, na Inglaterra... É o próprio “neoliberalismo urbano”, que tem sido chamado, também, de “empreendedorismo urbano” ou “empresarialismo urbano”.
No mês passado, os vereadores paulistanos aprovaram uma lei específica para o fechamento de ruas em áreas residenciais. No primeiro turno de votação, nenhum parlamentar se manifestou contrariamente. Se políticos não o fazem, o que os cidadãos paulistanos podem fazer para frear a segregação sócio-espacial na cidade?Esse é apenas mais um capítulo de uma novela, que começou há muito tempo e que ainda está longe de terminar. Muitos logradouros públicos já vêm sendo fechados há anos e não raro com autorizações dadas pelo Executivo municipal, em várias cidades. “Privatiza-se”, de certo modo, o espaço público, em nome da “privacidade” e da “segurança”. Inconstitucional, em última análise - mas, e daí? Vejamos a enorme quantidade de contradições e atritos, e de “ilegalidades legalizadas”, que se vão multiplicando pelo Brasil afora. Por exemplo: muitíssimos “condomínios fechados” são, na realidade, loteamentos fechados; e, à luz da Lei 6.766/1979, são ilegais, pois loteamentos, que abrigam logradouros públicos em seu interior (e nisso diferem dos verdadeiros condomínios), não podem ser fechados. E o que se faz? Tenta-se, de toda forma, em nome do “realismo”, legalizar esse tipo de situação no Congresso Nacional, por meio de lei, o que facilitará, ainda mais, a proliferação de (pseudo)condomínios. E aí faço a pergunta: será que os paulistanos (ou os cariocas, os belo-horizontinos etc.) estão, no momento, muito interessados em frear a segregação sócio-espacial? Ou será que, prisioneiros de um imaginário conservador (cada vez mais modelado pelos interesses da sociedade de controle em que vivemos), não estão, cada vez mais, aderindo à mentalidade de “dos males, o menor”?? Quem, de fato, está interessado em denunciar tais ilegalidades, em reverter a segregação e a autossegregação??