A crise anda de automóvel

Nesses tempos de instabilidade, evaporação repentina de bilhões de dólares, o mundo todo está assustado. Mas como assim assustado? - pergunta-se o escritor Hans Magnus Enzensberger. "O que me espanta, isso sim, é que as pessoas estejam surpresas ou chocadas com essa crise. Estranha é essa fantástica falta de memória", disse em entrevista à revista "Der Spiegel". De fato, a crise pouco tem de novidade. A não ser por dois fatos controversos.
De setembro para cá, enquanto as bolsas de valores em todo mundo -- de Nova Iorque a Tóquio, de Londres a São Paulo -- desciam ladeira abaixo, as ações da Volkswagen subiam. Saíram de um patamar de 200 Euros e passaram a valer mais de 1000 Euros. Milagre? Não, pura "engenharia financeira".
Na imprensa, a explicação é a seguinte: de olho na Volkswagen, executivos da Porsche fecham contratos de compra de ações da VW com bancos, com base em uma estimativa fictícia de valorização. Se o valor dos papéis cai, a Porsche paga aos bancos a diferença. Interessados na desvalorização, bancos e especuladores tentam vender no mercado papéis da VW e recomprá-los quando estiverem mais baratos. São negociadas na bolsa até ações tomadas emprestadas. Com a sede da Porsche pelas ações da VW, o preço sobe. Com essas transações, estima-se que especuladores e agentes ligados a bancos tenham perdido de 15 a 30 bilhões de euros.
A participação da indústria automobilística no cassino global é tão significativa, que já no ano fiscal de 2006/2007 os ganhos da Porsche no mercado financeiro eram quatro vezes maiores do que os com a venda de carros.
Em boa parte influenciado pelas ações da VW, já que o índice da bolsa alemã apontava valores irreais em meio à tempestade. Ainda não se sabe em que medida oepisódio contribuiu para arranhar a imagem da Alemanha no cenário de investimentos internacionais. Apesar disso, a reação mais imediata do governo alemão à crise nem tocou no ponto "reforma do sistema financeiro". A resposta do governo -- aliás, ele mesmo, proprietário de 20% das ações da Volkswagen -- até incentiva esse tipo de estratégia.
Com a intenção de evitar o aumento do desemprego, defender os consumidores e afastar o país da crise, a chanceler Angela Merkel conta com um super-herói: a indústria automobilística. A idéia é reduzir o imposto sobre a compra de veículos e, assim, aquecer o consumo. Automóveis que poluem menos estariam livres de tributos por dois anos. A medida nem foi oficialmente anunciada e, claro, já gerou a polêmica.
Para o governo, apoiar o setor automobilístico significaria apoiar um setor altamente estratégico para a economia do país. Por isso, também está em discussão tomar da União Européia o dinheiro que a indústria automobilística não consegue com os bancos durante a crise. Na Alemanha, são vendidos cerca de 3 milhões de carros novos por ano. Outra medida discutida em gabinetes é uma reforma geral dos tributos para automóveis. A idéia é basear o "IPVA" não no valor de compra do automóvel, mas com base na eficiência de consumo de combustível.
Comentários
25/03/2009 às 00:00alexandre - diz:alexandre - diz:Assunto sobre crise automobilistica