Para escrever CET tem serviço de informações desinformado (só para assinantes), Ricardo Sangiovanni gastou um dia de seu trabalho gastando combustível pela cidade em busca de interdições de ruas. Seu objetivo era saber se a CET (seja por telefone, pelo site, por painéis eletrônicos ou pela assessoria de imprensa), sabia desses percalços.
O repórter constatou “que os serviços da CET omitem ao motorista informações que vão de serviços pontuais de concessionárias (Sabesp, Eletropaulo, Telefônica) até obras grandes, como a drenagem de um córrego no Butantã (zona oeste), com cinco quilômetros de extensão e bloqueios parciais nas avenidas Pirajussara e Eliseu de Almeida -ali, as interdições começaram há seis meses, segundo funcionários.”
A resposta oficial da companhia é a de que seus serviços de informação nao têm como informar intervenções informais, não autorizadas. Acontece que não se trata de protestos espontâneos de moradores, passeatas de estudantes ou coisa que o valha. A CET não foi capaz de informar perturbações programadas, demandadas por companhias de serviços públicos.
Na melhor das hipóteses, o fenômeno dos “serviços de informação desinformados” seria produto de falta de coordenação interna. Alguém (ou alguma gaveta) dentro da empresa detém a informação; o problema é apenas que tal informação não alimenta os serviços ao cidadão. Na pior das hipóteses, há má-fé por trás dessas falhas. Pode ser que alguém acredite que esconder a cruel realidade do trânsito paulistano do motorista, do cidadão e, no frigir dos ovos, do eleitor seja uma boa política de marketing para a companhia. Entre um extremo e outro, a provável verdade se situa em um sistema precário de comunicação com a população e na falta de vontade política para melhorá-lo.
É verdade que a companhia está sucateada. Nesse ano, todos os candidatos à prefeitura -- inclusive aqueles que, como prefeitos, poderiam ter feito algo para reverter o quadro -- reconheceram isso. A baixa capacidade de investimentos da companhia contribui para que a própria conte com restritos meios de obtenção e depuração de informações.
Apenas 30% das 277 câmeras do circuito fechado de televisão utilizado pela CET desde 1997 estavam em condição de enviar imagens à central no ano passado. E mesmo assim, “com algum tipo de defeito ou prejudicadas pela perda de capacidade de movimentação”, conforme consta no relatório de gestão 2005/2007. Além disso e apesar da gravidade do problema da mobilidade urbana na metrópole paulistana, só uma pequena parcela dos 17.000 quilômetros de vias da cidade é constantemente monitorada pela CET – o que é absolutamente insuficiente para abordar um problema da magnitude da frota paulistana.
Mas quem visitar o site da CET perceberá facilmente que ainda está muito orientado para a divulgação de informações institucionais e pouco à divulgação de informações que tenham valor para o cidadão comum. Isso não ocorre por acaso. A CET foi criada no melhor espírito dos anos 1970 – época em que o número de automóveis por habitante era usado como indicador de bem-estar econômico e meio ambiente não era um tema tão forte como hoje. O próprio nome "Companhia de Engenharia de Tráfego" já diz muita coisa. Trânsito, mobilidade era coisa exclusiva de engenheiros. A CET surgiu como parte integrante e fundamental da tecnocracia brasileira para resolver problemas urbanos.
Os tempos são outros, como, aliás, a própria empresa reconhece em seu último relatório de gestão. Mas o que mudou não foi apenas a cidade – mais gente, mais carro e mais trânsito. Mudaram também as exigências com relação ao perfil das instituições que dão atenção para a mobilidade urbana. No caso da cidade de São Paulo, isso vale, no mínimo, para a CET, para a SPTrans e para a Secretaria dos Transportes. Para dar conta dos problemas contemporâneos da cidade, essas instituições deveriam passar por um “spin off”, reinventar-se, repensar seus processos, sua organização interna, seus contatos com o mundo externo e seus modos de operação. No centro de uma nova CET deveria estar o acesso em tempo real a informações georreferenciadas de qualidade -- até para que a companhia saiba melhor quais as melhores opções para a cidade -- e a abertura de canais de comunicação com a sociedade. Para isso falta autonomia, faltam recursos ou falta interesse?
É excelente que a CET tenha implantado um plano de carreira para os agentes de trânsito, tenha adotado novos uniformes para os "marronzinhos" e anuncie o início da recuperação econômico-financeira. Mas a sociedade espera – e não é de agora – muito mais profissionalismo e transparência no trato com a informação do que o que vem sendo historicamente praticado. Daí ser estranho que o relatório da gestão, em nenhuma linha de suas cem páginas, faça referência a alguma contribuição para uma nova política de informações sobre a mobilidade urbana em São Paulo.
Informação de qualidade disponível em diversos meios beneficiaria não só proprietários de automóveis – como alguns estariam tentados a postular –, mas todos os que dependem de algum veículo para se locomover na metrópole. Ter a informação sobre o surgimento de um engarrafamento, sobre o alagamento de parte de uma via devido a uma chuva mais forte ou sobre o fechamento de uma rua devido ao rompimento de uma dutora interessa tanto ao motorista – que pode alterar em tempo sua rota e evitar determinada região – como o usuário cativo de meios de transporte coletivo, que pode repensar seu plano, eventualmente reprogramar sua viagem e decidir melhor o que fazer com seu tempo.
Hoje, o paulistano sabe apenas que o trânsito de Sao Paulo é ruim (e mesmo assim, de uma forma bem impressonista, conforme a experiência de cada um e pouco baseada em fatos). Precisa começar a saber onde está ruim, onde está muito ruim e onde está menos ruim. Precisa começar a saber por que está ruim, para quem está ruim e quando pode melhorar. Precisa começar a exigir mudanças nas instituições, independentemente da vontade dos Robertos ou dos Alexandres que as comandam e independentemente de burocracias acomodadas com rotinas monótonas de trabalho. Enquanto informação de interesse públic o for tratada como se fosse segredo de Estado autoritário ou como luxo, nada vai melhorar..