Pedágio para quem?
Você pode comemorar ou lamentar, talvez comendo um pouco de doce de leite, talvez ouvindo uma bela canção do Milton Nascimento.
Logo mais, à meia-noite, começa a cobrança de pedágio no trecho paulista da rodovia Fernão Dias. Vinte cabines estão preparadas para receber dos automóveis que passam pelo quilômetro 7 da ligação entre São Paulo e Belo Horizonte R$ 1,10 em cada um dos sentidos. Prometidos para um futuro próximo estão a construção de 50 passarelas, o alargamento da pista, entre outras melhorias.
Mas, no finzinho do ano passado saíram na imprensa várias matérias mostrando que nem tudo anda bem com as rodovias em São Paulo e seus pedágios. A "Folha de S. Paulo", em 2 de novembro, informava que as concessões das rodovias paulistas tinham como consequência um aumento explosivo dos custos para o usuário. O Estado de São Paulo ganhará, neste ano, 61 novas praças de pedágio. Simbólico é o caso do trecho leste da Rodovia Marechal Rondon: para ir e voltar de Laranjal Paulista a Bauru, o motorista pagará R$ 37,60 em vez dos atuais R$ 7,20, conforme a reportagem. Na época, a justificativa do secretário de Transportes era de que os valores dos pedágios estavam defasados.
15 de dezembro, foi "O Estado de S. Paulo" que estampou no título: “Empresas descumprem exigências e podem perder concessão de rodovias”. A reportagem mostra que a vontade de o governo privatizar tem sido maior do que o interesse e a capacidade financeira dos consórcios. Renée Pereira relata que pelo menos três deles estariam em situação delicada. Anda sobre um telhado de vidro quem trafega pelas rodovias Ayrton Senna, Carvalho Pinto e Marechal Rondon.
Mas não tardou muito para que os lobbies das concessionárias também se expressassem na imprensa. Nesta semana, saiu no Jornal da Tarde o artigo “As concessões das rodovias”, que procura passar a sensação de que tudo anda está no caminho certo. O presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), Moacyr Duarte escreve taxativamente: “Hoje, em todos os países há consciência de que não dá para contar com uma boa infraestrutura rodoviária sem cobrança dos usuários e no Brasil não é diferente.” Mas será mesmo que esse modelo de concessões deve ser defendido com unhas e dentes, sem se importar como funcionam esses consórcios, sem analisar como eles têm operado as rodovias e, principalmente, sem se preocupar com a questão de quem ganha e quem perde com esse esquema?
No artigo, Moacyr continua: “O ideal seria cobrar de cada um pela quilometragem percorrida, por meio de controle dos veículos via satélite ou portais de registro de passagem, como se faz, por exemplo, na Alemanha, mas essa tecnologia ainda não chegou ao Brasil e é muito cara.” Peraí, Moacyr! Na Alemanha, não é bem assim... Até onde sei, veículos de passageiros circulam até hoje pela legendária rede de Autobahn e de rodovias federais sem pagar contribuição alguma por isso. O forte e bem organizado lobby dos motoristas ainda não permitiu que isso acontecesse... (o Autoclube alemão é a organização da sociedade civil com um dos maiores números de afiliados no país). Quem paga são caminhões com mais de 12 toneladas. E, ainda assim, uma tarifa relativamente baixa, que cobre pouco mais de um quarto dos 12 bilhões de euro por ano correspondentes aos custos ambientais e sociais por eles provocados.
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