A guerra fez mais uma vítima
“Estado natural” é a expressão que Thomas Hobbes, no século 17, usou para descrever a situação de uma multidão desunida, em que apenas os interesses particulares, os juízos e os apetites individuais imperam. Pautados por suas próprias paixões, cada um se esforça para destruir ou subjugar o outro. A desigualdade de forças levaria à guerra e à conseqüente desarticulação da sociedade.
Sem rebusco teórico e com pouca consciência de si mesma, São Paulo escreve diariamente sobre seu monstruoso sistema viário um novo capítulo de sua própria história hobbesiana da “guerra de todos contra todos”. Em um triste enredo recheado de inércia política e burocratismos, são mortas mais de quatro pessoas por dia. Ontem faleceu – entre outros, cujas mortes não mereceram cobertura da imprensa – uma ciclista chamada Márcia.
Ela era massagista, participava do grupo
Bicicletada e, assim como outros assinantes do
Manifesto dos Invisíveis, somente pedia um pouco de atenção e respeito. Profecia auto-realizável? Foi exatamente atenção ou respeito ou as duas coisas juntas que acabaram tirando a vida de Márcia, aos 40 anos.
Não é o caso de discutir o tamanho da culpa do motorista do ônibus que a fechou na Avenida Paulista. De algum modo, somos todos culpados. Falhamos ao evitar a morte de 2 pedestres por dia, de 4 motociclistas a cada três dias, de um ciclista a cada cinco dias. Falhamos ao ler essas estatísticas e ao digeri-las como simples números. Falhamos ao transformar em rotina a leitura de notícias trágicas como essa da Márcia.
Para o Hobbes do século 17, estava muito claro: a defesa da vida dos cidadãos deveria ser a função primordial do Estado. Os indivíduos, mesmo com interesses conflitantes, chegariam a um acordo e compactuariam um fim do “estado natural”. Em São Paulo do século 21, ainda não aprendemos a gerar condições mínimas de sobrevivência aos cidadãos. Basta ir ao trabalho, visitar um amigo, fazer as compras para vivenciarmos uma guerra de todos contra todos. Proteger a vida parece ainda um objetivo remoto, inalcançável, tão ininteligível como as próprias trincheiras e fronts em que se transformaram as ruas da cidade.
Comentários