Pra lá e pra cá
22/01/2009 às 19:26
A sociedade do GPS

Comecei a participar de um projeto bem interessante: estou ajudando a construir uma ferramenta georreferenciada de acessibilidade para a região metropolitana de Frankfurt. Se tudo der certo, até o final do ano, a ferramenta estará pronta e acessível para diversas entidades que operam e planejam transportes e outros serviços de utilidade pública naquela parte da Alemanha.

Por trás do complicado nome (eu mesmo não estou muito seguro sobre o nome correto disso), está um princípio bem simples: localizar os equipamentos públicos e outros locais estratégicos com ajuda de coordenadas geográficas e combinar essa base de dados com as informações digitalizadas sobre o sistema viário e o sistema de transportes na região. Assim, poderemos descobrir, por exemplo, se as escolas dessas cidades estão realmente próximas dos alunos ou se, em alguma cidade, deveria ser aberto um colégio. Poderemos saber se os serviços médicos de urgência conseguem atender chamadas de emergência em um intervalo de, digamos, cinco minutos.

Junto com colegas do Instituto de Transportes e Logística de Hamburgo, pretendemos fazer uma análise bem refinada da acessibilidade do Aeroporto de Frankfurt, um dos principais hubs da Europa continental. Até mesmo o atualíssimo projeto de construção de um novo ramal do transporte público da capital financeira alemã estará em análise. Quem será que esse projeto beneficia?

A primeira etapa desse trabalho é alimentar uma base de dados com o posicionamento exato de teatros, hospitais, shopping centers, entre outros estabelecimentos. No mês que vem, começamos a fazer algumas análises e fazer algumas experiências. E, assim, começo a ser um produtor de informações georreferenciadas e não só um consumidor delas (se bem que passar um tempinho no site do Google Maps é bem bacana...)

Na Alemanha, salta aos olhos que informações georreferenciadas e sistemas de posicionamento global (GPS) viraram uma mania. Neste Natal, mesmo com todas as advertências de que a recessão em 2009 é das mais sérias, houve quase corre-corre para garantir um navegador GPS para o carro. (Eles custam a partir de 200 reais.) Além disso, a mais nova geração de celulares com a função GPS deve, em breve, tornar a posição de cada cidadão identificável pelo espaço. Maravilha da tecnologia? Nem tanto, como alerta a atual edição de uma revista de curiosidades científicas.

A começar por quem tem o controle de tudo isso: os Estados Unidos. Basta o Pentágono "apertar um botão" para que o sistema básico de 24 satélites estacionados a 20 mil quilômetros sobre nossas cabeças deixe de prestar serviços civis. Aí sim conheceríamos o verdadeiro "caos aéreo". Londres também não é mais a mesma desde os atentados terroristas. Os cartões Oyster usados no transporte público contêm chips que armazenam dados pessoais dos passageiros. O usuário comum pode ter seus movimentos acompanhados pelo serviço secreto britânico. Por fim: o GPS também já chegou a empresas. Nos Estados Unidos, 10% das firmas monitoram sua frota de veículos (e, por tabela, seus funcionários) à distância.

Sobre a ferramenta, ainda não pensei como ela pode ser usada com maldade. Por enquanto, trabalho empenhado no projeto, acreditando que, com a convergência de tecnologias móveis de comunicação e sistemas de informação georreferenciadas, poderemos descobrir, apenas tirando um celular do bolso, onde fica o médico mais próximo ou em quanto tempo chega o ônibus para um determinado lugar e quanto tempo durará a viagem. Muita ingenuidade de minha parte?

Atualizado em 04/03/2009: A revista "Der Spiegel" desta semana cita mais alguns possíveis futuros usos dos sistemas de posicionamento global:
  • você direciona a câmera de seu celular a um monumento histórico e obtém informações sobre essa construção;
  • em uma excursão na floresta, o monitor do grupo pode ser informado se uma criança segue um rumo diferente e se perde;
  • fotografe-se o código de barras de um produto e o celular lhe diz onde se pode comprar aquela mercadoria pelo menor preço, naquela redondeza;
  • informações em tempo real sobre as condições do tráfego são compartilhadas entre os motoristas que levam consigo, por exemplo, um celular.
Celulares e mapas digitais abrem novas possibilidades para a formação de redes sociais. Alguns antevêm uma nova geração da Web: a Geoweb. De acordo com a revista, GPS é um dos principais temas da feira de tecnologia Cebit, que acontece em Hanôver. "Conglomerados como Microsoft e Google, Yahoo e Garmin, Tomtom e Nokia investem bilhões (em tecnologias de posicionamento) - embora ninguém saiba direito onde é que esta viagem vai dar."





Comentários

08/03/2009 às 00:00
Lilian - diz:
Parece muuito útil, principalmente para quem trabalha com pesquisas, urbanismos, história além do usuário comum. Pena que para chegar aqui essa tecnologia, principalmente com valor acessível falta muito. Nem muito interesse temos aqui né? :(



Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




 
Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
Posts anteriores
15/10/2009
• Quem dá mais?
17/09/2009
• Cotidiano
13/08/2009
• Bola e trilho
09/07/2009
• Rede para mudar
25/06/2009
• No cars go!
28/05/2009
• Eletrocicleta!
14/05/2009
• Saindo do zero
29/01/2009
• Deixe sucatear
11/09/2008
• É pique!
31/07/2008
• Ele voltou
24/07/2008
• Shared space
10/07/2008
• Tem de sobra!
08/05/2008
• Amsterdã
08/05/2008
• A ponte
10/04/2008
• Os bambambãs
18/10/2007
• E POD?
16/09/2007
• É sábado!



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados