Pra lá e pra cá
26/03/2009 às 11:29
Trilha sonora para esse vaivém

O jornalista me convidou para participar de seu programa de rádio. Eu fiquei meio ressabiado. O que eu teria de contar aos ouvintes? Tem gente que tem discursinho pronto, bem acabado e ligeiro, parece que feito para rádio e TV. Eu não sou assim e fiquei pensando que iria gaguejar, não conseguir explicar nada direito, confundir os dados de cidades diferentes, falar números errados, enfim fazer bobagem...

Mas, ao contrário do que esperava, o mais difícil nem foi a entrevista no estúdio e sim uma pergunta que veio antes dela. Eu teria o direito de indicar uma música para ser tocada na sequência. Qualquer estilo, qualquer língua, qualquer música. Apenas uma música. Qual?

O assunto é trânsito, transporte na metrópole brasileira. Fiquei, por alguns dias, em busca do som perfeito. Naquela semana, ouvi "Bike" do Pink Floyd, mas achei demais progressiva, abstrata e nem um pouco brasileira. E com uma letra bastante fraquinha, para dizer bem a verdade.

Então me ocorreu a antítese disso: o Chico Buarque. "Morreu na contramão atrapalhando o tráfego." Um dos versos mais poderosos que conheço, parte de uma poética realista e combativa. Quantas pessoas por dia não morrem assim, "atrapalhando o tráfego", em nossas cidades? Quais defuntos nas ruas paulistanas não se reduzem à condição de um empecilho qualquer? Atropelados parecem estar, por definição, na contramão da fluidez dos veículos. Chico sempre cai bem.

Um amigo soprou: "Entrei na rua Augusta a 120 por hora / Toquei a turma toda do passeio pra fora / Com 3 pneus carecas sem usar a buzina / Parei a 4 dedos da esquina". Essa adrenalina do Raul Seixas até que combina, mas achei uma situação muito caricaturada para a cidade inteira...

Passei então a cogitar letras que tratam a cidade como algo assustador. Afinal, São Paulo não teria os problemas de trânsito que tem, não fossem (pelo menos em parte) suas monstruosas dimensões. Mas "Sampa", do Caetano, acaba fazendo uma média, e aí perde a graça. Não dá para fazer média com a situação dos transportes em São Paulo, até mesmo se ela tivesse melhorado nos últimos anos. Aí pensei no Tom Zé, que também se assustou com a monstruosidade paulistana, mas que também
se apaixonou por essa cidade. Ele começou cantando assim: "São sete milhões de habitantes / Aglomerada solidão / Por mil chaminés e carros / Caseados à prestação / Porém com todo defeito / Te carrego no meu peito". Depois teve de atualizar a cifra para oito, dez milhões. Senão a música ficaria desatualizada, pegaria mal...

E então cheguei aos caras de Recife. Quer entender o que costuma acontecer na cidade? Nem é preciso ler A espoliação urbana, clássico de Lúcio Kowarick, e nem A (re)produção do espaço urbano, da professora Ana Fani Carlos. Basta ouvir e refletir A Cidade, cantada pelo saudoso Chico Science. Os mangueboys inovaram ao colocar todos os estratos sociais na mesma batida, na mesma levadas dos problemas urbanos. "Urubuservando a situação", Chico joga luz à fragilidade do ecossistema mangue e do  sistema social urbano. O refrão evoca um movimento constante, que conecta os deslocamentos horizontais na cidade (por transporte público ou individual) ao agravamento da assimetria vertical, entre os diferentes estratos sociais, vale dizer, entre catadores de caranguejo e os hiperempresários de nossos tempos. "A cidade não pára / a cidade só cresce / O de cima sobe / e o de baixo desce." É uma espécie de hino para mim, quando penso em sustentabilidade em ambientes urbanos. E não é para menos, né?



Um indício de que Chico Science estava mesmo certo foi publicado em O Estado de S. Paulo de hoje. "O mercado brasileiro de carros de luxo, com preços acima de R$ 120 mil, não está sentindo a crise." E há até fila de espera para alguns modelos, diz a repórter no caderno de economia.




Comentários

02/04/2009 às 11:33
Mara - diz:
Olá Thiago...Tomei a liberdade de entrar no seu blog e ler o post e achei interessnte o comentário com referencia a musica de Chico Buarque "Morreu na contramão"..."atrapalhando o tráfego", pois morei em S.Paulo dos 11 aos 39 anos e me fez lembrar do metro em Sampa, qdo algumas vezes o metro tinha longo tempo de parada pq um usuário do mesmo estava andando na linha(como diziam usuario na linha)...daí lembrei de alguns comentários das pessoas bem nervosas pq tinham horário no trabalho, comentários do tipo ISSO É HORA DE SE SUICIDAR, VOU CHEGAR ATRASADO...coisas de uma grande metrópole nÉ?... mas que assusta bastante pq o outro era visto com muita indiferença, assim como os moradores de rua que para alguns são invisiveis...Pois é, isso realmente é muito triste...Adorei o Post... Parabéns!



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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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