Saindo do zero
Impossível falar em cidade sustentável sem considerar as necessidades de pessoas com necessidades especiais. Ainda mais em um país como o Brasil, onde olhar para a frente significa olhar para uma população que envelhecerá bem nos próximos anos. São Paulo tem uma dívida imensa com idosos e pessoas com deficiência. E é muito improvável que essa dívida seja quitada rapidamente. Essa triste realidade ficou mais clara quando a própria prefeitura, depois de realizar vistoria em 3.500 lugares, chegou à conclusão de que a cidade não tem um único lugar plenamente acessível. Zero dos 3.500 lugares atendeu integralmente às normas brasileiras de acessibilidade.
Esse é mais um daqueles casos em que a anormalidade se tornou normal e sua dimensão é o motivo alegado para a inércia. Temos, novamente, o grande
paradoxo do poder público brasileiro, que se vê de mãos atadas por não saber nem por onde começar. O problema é muito maior do que a capacidade de orientar, fiscalizar e corrigir. Até porque o próprio poder público a desrespeita. "Na Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania, no Pátio do Colégio, por exemplo, a rampa é improvisada", conforme passagem retirada de um dos raros textos na mídia sobre o assunto. Se é assim, o que fazer?
Há pouco tempo a Avenida Paulista ganhou uma
"guardiã da mobilidade". O trabalho de Julie Nakayama, assessora da vereadora Mara Gabrilli, consiste em reportar falhas no calçamento e outros tipos de fronteiras na via mais famosa da cidade. Julie pretende fazer da internet sua aliada: o site
http://guardiadapaulista.ning.com é aberto à colaboração de leitores e seu
Twitter já está no ar. Para alguns, a tarefa de uma guardiã remete ao denuncismo e a palavra em si traria ares mais de militarismo do que de cidadania. Minha opinião? É louvável todo esforço feito para cuidar melhor da cidade, para reunir informações permanentemente.
Uma verdadeira
revolução democratizante aconteceria como consequência da desobstrução de edificações e locais públicos a cadeirantes, pessoas com deficiência visual e auditiva, idosos e até mesmo pais conduzindo carrinho de bebê. A revolução tem um conteúdo programático bastante claro e é o fruto da soma de pequenas iniciativas:rebaixamento de calçadas e provisão de semáforos com sinais acústicos para deficientes visuais; vagas de estacionamento reservadas a pessoas com deficiência; pisos táteis em ruas e praças; rampas como alternativa às escadas; ônibus com piso rebaixado.
Por causa do relevo e da organização espacial da cidade, nem mesmo uma cidade como Viena pretende se tornar 100% acessível. Mas que São Paulo poderia sair facilmente do zero, sem dúvida que poderia. Que o trabalho em rede de pessoas como a Julie dê certo!
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