No cars go!

Neste domingo Hamburgo comemorou o início oficial do verão com um
Dia Sem Carro. Um dia atípico, até com direito a chuva de granizo para testar a fidelidade dos participantes. Atípico também para os organizadores: foi a primeira vez que o Dia sem Carro bloqueou vias largas e importantes no centro da cidade. Uma enorme diferença!
De repente, aquela rua, sem carros e tão silenciosa, se transforma em um outro lugar. Um lugar onde nossas atenções se voltam ao café na esquina, ao canto de um casal de pássaros ou mesmo à ressonância de nossos próprios passos sobre a calçada. Com um pouco mais de coragem, São Paulo deveria experimentar com alguma
frequência o fechamento de ruas movimentadas para o trânsito de
automóveis particulares. (Aí, certamente minha vizinha de blog, Giu Capello, sentiria menos
repulsa à cidade, é ou não é?)
Ao longo de dois quilômetros de ruas livres de automóveis, instalações de educação para o trânsito e tendas informativas se misturavam a estandes de produtos orgânicos e arenas para a prática esportiva. Até o famoso salsichão, presença obrigatória em todo tipo de evento público na Alemanha, era vendido em sua variante sustentável.
O Dia Sem Carro teve amplo apoio da prefeitura, principal responsável pela divulgação do evento. A própria secretária dos transportes e do desenvolvimento urbano apareceu em um debate, reconheceu que muito mais deveria ter sido feito no último ano de governo e concordou que tem sido um fiasco obrigar ciclistas a usar ciclovias que muitas vezes não propiciam condições efetivas de segurança. Ela disse que a cidade deverá abandonar aos poucos a ênfase em ciclovias e apoiar mais o transporte por bicicleta em faixas sobre o leito carroçável, ou seja, no mesmo nível pelo qual trafegam os automóveis. Em São Paulo, é como se o Alexandre de Moraes estivesse ali, no meio da praça, trocando uma idéia com as pessoas presentes. Cena como essa eu ainda estou para ver.
O
lobby dos ciclistas organizados (ou seria o
lobby organizado dos ciclistas?) coordenou diversas bicicletadas saindo das periferias pela manhã e chegando ao centro da cidade por volta da uma da tarde. Amigos meus pedalaram alguns quilômetros junto com crianças e gente que não costuma andar de bicicleta e me contaram depois sobre a atmosfera bacana do passeio ciclístico. De fato, os ciclistas trouxeram uma considerável dose de bom humor ao evento
Mas, como minha bicicleta amarela está no conserto desde a semana passada, fui de metrô. Aliás, essa foi outra coisa bacana do Dia Sem Carro: transporte público gratuito para todos. As companhias abriram mão da arrecadação no Dia Sem Carro e montaram quiosques para colocar o público a par de sua contribuição para o meio ambiente. Os quiosques atraíram algumas pessoas. Já as estações e trens do metrô superlotaram. Nem em dia de jogo de futebol, eu as havia visto tão cheias.
Pena que esse movimento todo não aconteceu só por causa do Dia Sem Carro. Nenhum balanço sobre o Dia sem Carro foi feito até agora, mas talvez as boas intenções para a mobilidade sustentável sejam o menor dos motivos para o agito todo que vi. É que excepcionalmente nesse domingo o comércio também ficou aberto até as 18 horas. Na Alemanha, é raríssimo ver o comércio aberto no domingo. Sindicatos e até a igreja se posicionam contra a abertura das lojas sete dias por semana. Mas desta vez, o comércio abriu e atraiu muita gente, apesar do fantasma da crise.
E aí minha constatação: quem vai às compras ao domingo e quem toma chuva por uma cidade mais sustentável não são públicos diferentes. O participante médio de eventos como o Dia Sem Carro é aquele que vê o que está acontecendo na rua, apoia parcialmente a utopia da cidade sem carro, mas não perde a oportunidade de fazer "comprinhas básicas" em alguma loja no centro da cidade. Claro que há exceções, visto que até integrantes de movimentos anti-globalização também distribuíam panfletos no domingo. Mas, na média, seja na Alemanha, seja no Brasil, é isso mesmo: as pessoas ainda por descobrir um agir coerente e consistente em prol das gerações futuras. Por enquanto, eventuais contradições entre mobilidade sustentável e consumo insustentável são embrulhadas e levadas para casa, para serem digeridas em uma outra ocasião durante o verão europeu...
Foto: Crianças experimentam diversos meios de transporte não-motorizados em rua no centro de Hamburgo, durante o Dia Sem Carro
Comentários
29/06/2009 às 11:52Giuliana Capello - diz:Oi, Thiago, pois é, você tem toda razão. (Tentar) circular em São Paulo de carro é um exercício e tanto de paciência. Tenho feito de tudo para reduzir os trajetos percorridos na cidade: montei escritório em casa, abasteço a cozinha em mercados do bairro, procuro os serviços mais próximos etc. Ainda não tive coragem de virar ciclista, porque não sinto segurança para isso. Acho que eu ficaria muito tensa em meio a tantos carros, ônibus, fumaça, motoboys... Mas acho o máximo quem levanta a bandeira, bota um capacete e sai pelas ruas com cara de felicidade. Deve ser prazeroso mesmo poder circular na cidade parando apenas nos semáforos e sem ter parte na poluição atmosférica. Gostei muito do seu texto e admiro sua relação afetuosa com São Paulo. Mesmo distante, com um oceano inteiro no meio, você tem se mostrado um paulistano mais atento ao futuro da metrópole do que muita gente que mora por aqui e convive com o problema diariamente. Um beijo para você!
08/08/2009 às 01:46
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