Pra lá e pra cá
22/05/2008 às 10:14
Exclusão em movimento


Na semana passada, reclamei do preço do metrô de São Paulo. Pela extensão da rede e pelo poder aquisitivo dos trabalhadores paulistas, o preço do bilhete é amargo mesmo. Mas faltou ver o lado bom do metrô de São Paulo. Apesar dos 3 milhões de passageiros diários, o metrô mantém a imagem do mais seguro, confortável e confiável meio de transporte de nossa metrópole. E merece.

Em comparação com terminais de ônibus, as estações do trem metropolitano ou mesmo garagens e estacionamentos de automóveis, as estações de metrô apresentam-se bem mais limpas e organizadas. O usuário costuma encontrar facilmente um funcionário para uma informação ou uma ajuda qualquer. Embora faltem elevadores em estações das linhas mais antigas, escadas rolantes são bem distribuídas e quebram um galho para muita gente. As composições devoram as distâncias entre as estações em velocidade de causar inveja em qualquer motorista durante o dia. Às vezes, as próprias estações (como a Alto do Ipiranga, uma das últimas a serem inauguradas) são respeitáveis exemplos de bom gosto arquitetônico. Até há pouco tempo, eu mesmo estaria dizendo que se há algo que funciona em São Paulo, é nosso metrô.

Na Europa Central, a realidade é outra: o transporte urbano sobre trilhos representa, na opinião de muitos, um lugar da segregação. Ao contrário das cidades brasileiras -- onde a exclusão está demarcada territorialmente -- os trens metropolitanos de Berlim ou Hamburgo (foto) se identificam com grupos de escolares e de jovens ouvindo MP3 em alto volume, com bêbados, com migrantes, com marginais, com desempregados e com todos aqueles que não têm alternativa no dia-a-dia. É comum ter de passar por túneis escuros e aguardar em plataformas estreitas pelos trens com janelas alvejadas por vândalos. Pessoas com deficiências e idosos são os que mais sofrem em estações construídas ao sabor de uma centenária salada de épocas e estilos.

Daí não ser surpresa saber que os meios públicos transportam apenas 8% dos alemães. A bicicleta responde por 9%. Aproximadamente 23% das viagens são feitas a pé. E os meios motorizados individuais respondem pelos 60% restantes. O automóvel é o meio de transporte favorito em Roma, em Londres e até na verde Copenhague.

Portanto: deve-se mesmo lamentar que o bilhete de metrô em São Paulo seja um dos mais caros do mundo. Por outro lado, não basta que o metrô seja barato e não basta que trilhos serpenteiem por toda a cidade. A conquista do espaço público por meios de transporte públicos passa também por uma queda-de-braço entre símbolos. Quase no mundo inteiro, o ícone do automóvel e de seu poder é ainda mais forte do que o discurso da mobilidade sustentável.





Comentários


Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




 
Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
Posts anteriores
15/10/2009
• Quem dá mais?
17/09/2009
• Cotidiano
13/08/2009
• Bola e trilho
09/07/2009
• Rede para mudar
25/06/2009
• No cars go!
28/05/2009
• Eletrocicleta!
14/05/2009
• Saindo do zero
29/01/2009
• Deixe sucatear
11/09/2008
• É pique!
31/07/2008
• Ele voltou
24/07/2008
• Shared space
10/07/2008
• Tem de sobra!
08/05/2008
• Amsterdã
08/05/2008
• A ponte
10/04/2008
• Os bambambãs
18/10/2007
• E POD?
16/09/2007
• É sábado!



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados