Pra lá e pra cá
29/05/2008 às 11:54
Solidariedade no trânsito

Em São Paulo, isso existe? No dia-a-dia, a gente chega a duvidar. O mais fácil é flagar uma bárbara "guerra de todos contra todos" no asfalto. Motoristas disputam espaço um com os outros, xingam-se, chegam a se orgulhar de suas barbeiragens e, a não ser quando enxergam um radar, não estão nem aí para os limites de velocidade. Desrespeitam as pessoas e a cidade. Motociclistas também têm culpa no cartório. Enquanto buzinam e gritam (olha o ponto em que a selvageria chegou!), trafegam em um espaço mínimo entre as fileiras de carros. Sua pressa é mais importante do que qualquer coisa. Motoristas de ônibus despejam passageiros no meio da rua, o caminhão de refrigerante parado na esquina... O trânsito em São Paulo é assim. Brutal, perigoso, fatal. Essa guerra civil tira a vida de quatro pessoas por dia. E pior: a gente tem a sensação de que todo mundo assiste e ninguém faz coisa alguma.

Nesse cenário, a solidariedade tem alguma chance? Sim, dirá o governo. Sempre que os congestionamentos parecem se tornar insuportáveis, as autoridades recorrem a ações que procuram despertar a "consciência cidadã". Medidas educativas, que deveriam ser executadas regular e continuamente, procuram cativar a solidariedade dos motoristas. Afinal, se em cada automóvel fossem transportadas quatro ou cinco pessoas ao invés de uma ou duas, como hoje em dia, o problema do trânsito não seria tão agudo.

Ontem foi o dia do Mutirão da Carona, promovido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Motoristas sozinhos dentro dos carros que passaram por cruzamentos importantes receberam uma "multa de brincadeira", um incentivo para um comportamento mais solidário. O secretário Xico Graziano justifica que a decisão de dar carona para alguém poderia contribuir para reduzir os malefícios dos congestionamentos e da poluição atmosférica. Mas o secretário ressalva: "Não para qualquer um, na rua, é claro, mas sim para seu colega de trabalho, seu amigo, na empresa, na escola." Solidariedade, sim. Mas uma solidariedade seletiva, por causa da insegurança... Mas a questão principal é: os paulistanos mudarão seu dia-a-dia a partir dessa ação?

Anos antes do Mutirão, pistas de ruas importantes da cidade foram reservadas para automóveis que transportavam duas pessoas ou mais. Com pequena adesão, o programa fracassou e foi suspenso. Hoje, as faixas solidárias não existem mais. Impera o "salve-se quem puder" nas ruas. Da mesma forma, o Mutirão corre o risco de ter um efeito limitado, por apostar muito em um repentino despertar da consciência ambiental da população e pouco nos fatores concretamente considerados para a tomada de decisão da realização de um trajeto.

No entanto, experiências adotadas em menor escala podem trazer bons resultados. A Lufthansa Technik, dedicada à manutenção de aeronaves, emprega cerca de 7 mil funcionários em Hamburgo e, já no começo da década de 1990, nem tinha como oferecer uma vaga de estacionamento para cada um deles. Então, foi desenvolvido um projeto de mobilidade que incluiu diversas ações. A empresa operou uma linha de ônibus para conectar o local de trabalho a meios de transporte público. As vagas de estacionamento foram priorizadas para os carros que serviriam a "comunidades de carona". Infra-estruturas para o estacionamento de bicicletas foram instaladas. Informações sobre o programa, que continha outras medidas, foram disponibilizadas em locais estratégicos da empresa.

Entre 1991 e 2003, o número de trabalhadores que aderiram ao transporte público saltou de 360 para 1.590 e o uso da bicicleta passou de 400 para 650. Membros das comunidades de carona beiravam a marca de mil trabalhadores. Milagre? Não. Decisões racionais baseadas em medidas objetivas adotadas pela empresa. Em São Paulo, o governo poderia -- talvez até no bojo desse Mutirão -- incentivar que empresas, condomínios e vizinhanças pensem e implementem programas visando a um uso menos intensivo dos meios individuais motorizados. Seria melhor do que esperar que um milagre salve nossa metrópole.





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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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