Tem de sobra!

Em São Paulo, nenhum cidadão em sã consciência tem dúvida de que há muito carro para pouca rua. Mas em algumas cidades da Alemanha, a situação é exatamente a inversa: muita rua para pouco carro. Isso mesmo! Sobram ruas, vagas de estacionamento e até estações de trem. Ninguém usa.
Desde que o Muro de Berlim caiu, milhares de pessoas têm abandonado as cidades da ex-Alemanha Oriental e procurado novas perspectivas em cidades com melhores salários e empregos. Por falta de moradores, grandes blocos residenciais são demolidos. Escolas, hospitais e outros equipamentos públicos são fechados. Não vale a pena mantê-los abertos com uma clientela tão reduzida.
Claro que o governo, diante disso, não ficou de braços cruzados. Mas a grana preta injetada para vitaminar a competitividade das cidades orientais (por volta de 2,5 bilhões de euros entre 2002 e 2009) até agora não conseguiu tornar mais atrativos os lugares outrora socialistas.
A questão que fica é: o que fazer com toda a infra-estrutura que já existe? Como ficam as ruas, a canalização, as redes de eletricidade? Nem mesmo urbanistas têm a resposta na ponta da língua, já que, para eles, o intrigante ainda é imaginar novos bairros e cidades em crescimento.
“Deixar ao léu” é uma das saídas. Solução até aceitável, já que desfazer tudo seria muito caro – ou até caríssimo, nesses tempos de vacas magras para as prefeituras. Outra opção é buscar “melhorar o uso da infra-estrutura”. Ajustar melhor o horário de funcionamento dos ônibus, eventualmente utilizar a área já asfaltada para outra finalidade, enfim, fazer alguma coisa para evitar os ares de cidade fantasma. Afinal, às vezes menos movimento na rua significa a chance de fazer contato com quem mora do outro lado da antes movimentada e perigosa via. Nesse caso, usar melhor a infra-estrutura seria a chance para fazer a social....
E o que tudo isso tem a ver com o Brasil? É claro que são realidades diferentes e que nosso país deve continuar crescendo pelos próximos cinqüenta anos. Mas, dentro das grandes cidades, alguns bairros também estão atrofiando. São Paulo: dos 96 distritos da capital paulista, 53 – tanto aqueles que eram predominantemente industriais (Barra Funda, Lapa), como os do centro (República, Consolação) – perderam moradores entre 1991 e 2000, de acordo com os dados dos censos. E, no geral, a cidade não mais cresce ao ritmo alucinante dos anos 1950 e 1960.
Mas, em São Paulo, ainda não dá para falar em recuo da infra-estrutura de transportes. O déficit ainda é grande e há muito o que se fazer. Ou seja: não podemos falar em muita rua para pouco carro ou muito ônibus para pouca gente... Por outro lado, a cidade deveria, isso sim, ver os imóveis desocupados como chance de resolver melhor a questão habitacional na cidade. Quem sabe não está aí uma bela chance de se aliviar a pressão urbana sobre as áreas de proteção a mananciais, por exemplo?
(No mapa da Alemanha, os pontinhos azuis são as cidades que estão diminuindo, diminuindo, diminuindo...)
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