Ele voltou

Um meio de transporte eficiente no dia-a-dia da metrópole, que respeita, valoriza e até requalifica a paisagem urbana e que não agrida o meio ambiente. Não é o trem-bala, não se chama fura-fila e não lembra, nem de longe, o aerotrem. Esse meio de transporte é, na verdade, o bonde.
Andar de bonde voltou a ser "cool" na Europa. Na França, mais de vinte cidades já têm ou tem planos para adotá-lo não só como uma pontual, prática e segura alternativa de transporte, mas como verdadeiro marco de uma ampla reforma urbana.
Reporta a edição especial da revista
Der Spiegel que, até 2015, deve chegar a 576 quilômetros a extensão da rede de trilhos. Rede essa que havia sido abandonada, até ridicularizada a partir dos anos quarenta, quando se imaginava que o automóvel fosse sinônimo de um futuro melhor.
Como em São Paulo a partir da opção por um modelo rodoviarista do transporte sobre pneus. Em nossa cidade, bondes também foram caracterizados como marcas do atraso, bugigangas que atravancam o trânsito de veículos com motores a combustão. Desde Prestes Maia, eles tiveram de ceder espaço a vias expressas, túneis e viadutos -- estes sim, modernos. Se você não se lembra dessa história, não tem problema: basta olhar agora através da janela. Ainda estamos presos a esta lógica...
Os bondes modernos de Marselha, segunda maior metrópole da França, logo deverão transportar 55 mil passageiros por dia sobre duas linhas, em um total de 10,8 quilômetros. Paralelo ao investimento no velho novo sistema de transporte, a cidade aposta em criar novos estacionamentos junto às estações de "tram" para enfrentar o problema dos congestionamentos no centro.
Mais interessante ainda é o que acontece em Estrasburgo, cidade cuja história recente vai de mãos dadas com o bonde. Ainda segundo a revista alemã, em 1989, a candidata à prefeitura Catherine Trautmann venceu as eleições com a bandeira dos bondes. Cinco anos depois, a primeira linha foi inaugurada e os temores do comércio (seja no Brasil, na França ou em qualquer lugar do mundo, comerciantes tendem a ser uma grande fonte de resistência a mudanças na cidade) se dissiparam.
Boa parte dos usuários do serviço de trans são motoristas de automóvel, que antes congestionavam o centro da cidade. Agora, eles pagam 2,70 euros (R$ 6,65) para estacionar perto de uma das estações de bonde. Mas, pagando a tarifa de estacionamento, todo mundo que estava no carro pode andar de bonde. "O tram funciona como uma esteira rolante urbana", brinca um especialista.
Em Estrasburgo, o sucesso dos bondes se mantém até hoje e se internacionaliza. Mas não pelos bondes em si. Simplesmente por mostrar que é possível abrir caminho a padrões de mobilidade mais sustentável com políticas inteligentes de transporte.
Ouvi por aí que o Estadão deve publicar uma revista especial sobre o tema "Megacidades" neste domingo. Oba, eu quero!
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