Pra lá e pra cá
13/08/2009 às 16:55
Bola e trilho


Em 2014, a Copa do Mundo será nossa. O “país do futebol” voltará a ser sede do evento-mor do esporte mais popular do planeta. Você já imaginou o que será sentir o clima de Copa perto de nossas casas?

Mas Copa é mais que bola na rede, mais que milionários no gramado e também muito mais do que confraternização entre as nações por intermédio do espírito esportivo. Copa é um evento que mexe com pessoas e cidades. Mais com cidades do que com pessoas, considerando que sempre há uma parcela que se abstém de futebol.

Cidades sempre se transformam com Copas do Mundo. Às vezes mudam para sempre. Afinal, a estrutura requerida para uma Copa do Mundo não é pouca coisa. Em um curto período, chegarão milhares de turistas, vindas de todas as partes do mundo, querendo se informar, buscando hospedagem em algum lugar, desejando conhecer o Brasil e precisando, para tudo isso, se locomover – de preferência com segurança e rapidez. Muito desses preparativos acabam ficando mesmo depois do apito final do último jogo.

A última Copa, realizada na Alemanha, trouxe melhorias que mudaram a cara de diversas cidades. Por exemplo, Berlim, onde a Itália levantou a taça depois de vencer a França de Zidane. A nova estação central de trem (foto) custou 700 milhões de euros, mas é uma dessas obras consideradas “maravilha arquitetônica”. Além disso, ela é mais um passo para a consolidação de um novo centro em Berlim – desta vez no meio da cidade, não muito distante da antiga zona de risco de vida. O muro caiu faz vinte anos anos, mas só agora, com oportunidades como a oferecida em 2006, começa a surgir uma Berlim reunificada do ponto de vista urbanístico.

A África do Sul, que abrigará os jogos no ano que vem e que acabou de receber a visita de especialistas de transportes ligados à ANTP, espera receber cerca de meio milhão de turistas e muitos outros milhões em investimentos. Com relação a turistas, podemos supor que chegará ao Brasil um número ainda maior. Mas e os investimentos? Será que conseguiremos deixar a casa em ordem até 2014?

Com relação aos transportes, o tema central desse “aquecimento” para os jogos é a promessa do trem-bala ou, no linguajar técnico, TAV. O trem de alta velocidade deverá conectar por trilhos a até 300 km/h três das mais expressivas regiões metropolitanas do país, onde vivem onde vivem 34 milhões de pessoas. Essas regiões, na prática, não vivem mais separadas. Com cerca de 500 quilômetros de extensão, o traçado do TAV atua como ligação por terra dos hubs aéreos de Viracopos, Guarulhos e Galeão.

De São Paulo a Campinas em 42 minutos. De São Paulo ao Rio de Janeiro em uma hora e meia. A ideia soa sensacional, pelo menos para gente como eu, que é fã de trem e que quase chora ao ver cidadezinhas como Paranapiacaba e seu patrimônio histórico se desmancharem pela ação do tempo e dos vândalos. E sobretudo quando o balanço ambiental com relação à atual ponte aérea é supostamente bastante positivo.

Estudos sérios para a concretização do trem-bala no Brasil existem há pelo menos 10 anos. Questionável é se o projeto ficará pronto até 2014. O governo federal (e sobretudo ela, a ministra Dilma Rousseff) espera o trem-bala para o ano da copa. Mas no meio do caminho sempre há os pedregulhos jurídicos e o processo de licenciamento ambiental, que deve ser serenamente respeitado e não atropelado. Porque aí seria o caso de cartão vermelho...

(Foto: A Copa se foi, mas a Estação Central ficou e Berlim ganhou uma nova centralidade.)





Comentários

14/08/2009 às 11:00
Gabriel Lacorte - diz:
Projetos gigantescos são ótimos para o desenvolvimento urbano do país. Mas será que no caso do Brasil não trará prejuízos? Será que o Brasil se preocupou demais em vender o Brasil como ele é lá fora ao invés de se preocupar com o que os turistas realmente vão ver e achar do nosso país?

14/08/2009 às 11:32
Thiago Guimarães - diz:
Oi, Gabriel! Também tenho medo do gigantismo, mas acho a conexão ferroviária São Paulo - Rio de Janeiro bastante importante. Num país tão grande como o Brasil, parece que as lacunas de infra-estrutura são maiores que os projetos que visam a preenchê-las. (Leia outra opinião sobre esse assunto aqui: http://www2.camara.gov.br/internet/homeagencia/materias.html?pk=138421) Também estou certo de que o TAV tem grande importância para nós, brasileiros. Agora, é claro que a viabilidade econômica do projeto é uma questão fundamental. Aí, precisamos olhar os dados com boas lupas...



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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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