Caixa de ferramentas urbanísticas

Um misto de acaso, posicionamento estratégico e o jogo de afinidades e contrastes entre dois países vai me levar das salas de aula de Hamburgo para as ruas de Diadema e para a Marquise do Ibirapuera.
Alemanha e Brasil vivem faces opostas do planejamento urbano: de um lado, sobram profissionais que lutam por um espacinho em um mercado de trabalho saturado. Sobre espaços concretamente planejados, atua um emaranhado de instituições com foco em múltiplos temas e escalas. De outro, a demanda real (por moradia, por transporte, por saneamento básico...) é enorme, mas pode-se dizer que a profissão – esmagada entre ocupantes de uma burocracia, a classe de arquitetos e atores do processo político – não existe. Planejamento urbano no Brasil foi, por muito tempo, ficção. Hoje é uma colagem de leis, projetos e ideais que se metamorfoseiam e tentam preparar o país para os desafios que ganham volume.
Mas não é fácil
traduzir para o alemão aquilo que em alemão não existe. Meus últimos seminários e trabalhos focam os problemas urbanos brasileiros com o pano de fundo da inexistência de um sistema de planejamento. Na
universidade, verso sobre cicloativistas e as chances de um planejamento comunicativo em São Paulo ou a impossibilidade de um planejamento urbano democrático sob a dominação ilegal de territórios e conflito armado, como no Rio de Janeiro atualmente. Desde que comecei meus estudos, também procuro traduzir as informações que recebo aqui para a realidade brasileira. O
Pra lá e pra cá documenta e testemunha boa parte desse processo.
Talvez tenha sido a dificuldade dessa tradução que chamou a atenção de um professor e de seu assistente. Eles me convidaram para acompanhar a comitiva alemã que fará uma contribuição na
Bienal Internacional de Arquitetura, que acontece de 31 de outubro a 6 de dezembro. A proposta dos alemães é discutir a
“cidade para todos”, tema que acho bem apropriado. No Brasil, esses arquitetos e planejadores discutirão propostas concretas para a Serraria, bairro de uma das mais densamente povoadas cidades brasileiras:
Diadema. (Será Diadema de fato lugar de uma cidade para todos?)
Da Alemanha, eles trazem uma
caixa de ferramentas urbanísticas, isto é, um conjunto de processos e projetos com exemplares resultados sócio-espaciais e culturais, e que podem ter bom uso no Brasil, dependendo da realidade que for encontrada. Eu já dei uma espiada nessa caixa de ferramentas. Sei que dentro dela estão muitos processos auto-gestados, iniciativas populares, muita participação da população, projetos de requalificação do espaço público, conquista de áreas verdes, estruturação de cooperativas e circuitos econômicos alternativos e muito mais. Ferramentas efetivamente importantes para a modelação do espaço das cidades brasileiras.
O objetivo da
IBA Hamburg - organização que venceu o concurso organizado pelo governo alemão para coordenar a participação alemã na Bienal - é apoiar a
tranferência de tecnologia urbanística e fomentar um tipo de intercâmbio que não se esgota com o fim da exposição. Em 2010, estudantes de arquitetura e urbanismo de universidades brasileiras serão convidados para visitar Hamburgo e conhecer projetos em andamento.
Para o
Pra lá e pra cá, esse projeto soa bastante interessante: Diadema é uma cidade rasgada ao meio pela Rodovia dos Imigrantes. A própria conclusão do trecho sul do Rodoanel deve mudar estruturalmente as condições de deslocamento em Diadema. Registros de experiências e propostas para a mobilidade urbana que surgirão nessa missão serão publicados nesse blog ao longo da Bienal.
Foto: Construção de ponte no trecho sul do rodoanel de São Paulo (Divulgação)
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