Pra lá e pra cá
06/08/2009 às 15:22
Motorista em recuperação


O Eco Balaio invade o PLPC. Há muito tempo eu venho prometendo ao meu amigo Thiago um testemunho sobre a minha conversão, do carro para o transporte público. Chegou a hora. Isso porque o Thiago sabe que, no meu caso, foi uma verdadeira revolução.O negócio aqui é falar francamente, de motorista para motorista, e quem sabe você também encontre “o caminho da luz”. :)

Uma das dificuldades para se deixar a caranga é a seguinte: carro é afeto. Depois de passar toda sorte de perreios no transporte coletivo, já que morava num bairro afastado da Zona Sul, não tenho vergonha de admitir que me apeguei ao meu paliozinho como se fosse gente.

Nunca me esqueço do dia em que larguei o trabalho no meio da tarde, peguei a estrada rumo a Campinas porque eu precisava fazer uma declaração de amor.

Era um impulso. Se precisasse pegar taxi, depois ônibus, talvez tivesse pensado duas vezes. Naquele dia, lembro do sol se pondo na Bandeirantes, a estrada linda, o som no rádio, e eu no meu banco de motorista, dona da minha vida, do meu rumo, do meu destino.

A outra face da moeda é que carro é vício. Quem está mergulhado nesse ciclo não consegue enxergar outra possibilidade. É muito difícil perceber o mal que aquele ambiente pode fazer. Já cometi impropérios indescritíveis em brigas de trânsito. Basta dizer que, por muito menos, outras pessoas já foram baleadas.

Quando mudei de bairro, sem intenção de ficar sem carro, passei a fazer algumas coisas a pé. Um dia me peguei paralizada na esquina da Gabriel Monteiro da Silva com a Faria Lima, olhando fascinada o caos que um semáforo quebrado tinha criado.Os carros parados avançavam uns sobre os outros, disputando cada centímetro. Uma massa uniforme de metal, as buzinas enlouquecedoras. E eu fiquei aliviada que não era comigo. Do lado de fora, aquilo parecia insano como nunca tinha me parecido.

Nunca tinha me ocorrido que eu era parte do problema. Eu botava a culpa sempre nos outros carros, no governo, na cidade. Alguém tinha que resolver aquilo para eu passar. Mas a verdade é que eu estava ajudando a criar a loucura cotidiana. Sou também responsável.

A gente se acostuma com tudo. Mas nem por isso o trânsito de São Paulo é menos inaceitável. Meu conselho é: não se deixe acostumar. A solução para mim foi me mudar para perto de uma estação do metrô. Às vezes é lotado, mas é muito mais rápido e menos estressante do que dirigir. Uso muito taxi e é muito mais barato do que sustentar um carro.

Experimente o transporte público. Há muitos trajetos que não são precários como se pinta. Considere se mudar para perto do trabalho, considere trabalhar de casa, considere trocar caronas. Sei que muita gente não tem alternativa, mas muita gente tem. É questão de ensaiar um passinho para fora do mundo do carro e descobrir um mundo novo. É maravilhoso ver as notícias de recordes de engarrafamentos na cidade e lembrar: “eu não tenho mais nada a ver com essa m...”.

Carolina Derivi
Foto: Essa sou eu em outros carnavais...






Comentários

06/08/2009 às 23:30
bruno morino - diz:
Muito bom Carolina!Eu fui salvo a tempo, estava tirando carteira de motorista quando comecei a andar de bicicleta e vi que era um transporte totalmente possível para áreas urbanas. Família ficou assustada quando me foi oferecido um automóvel e simplesmente não aceitei, aquele objeto que representa a liberdade para um jovem de 18 anos, e a poucos meses era um enorme desejo, já não fazia mais sentido algum para mim, a real liberdade já havia sido alcançada

07/08/2009 às 11:56
Willian Cruz - diz:
Parabéns, Carolina. Também já fui como você era (talvez pior).

07/08/2009 às 12:33
Carol Derivi - diz:
Poxa, Bruno, que legal. Esqueci de colocar nas minhas recomendações: "considere a bicicleta". Sou profunda admiradora dos ciclistas, acho que é um movimento maravilhoso, de contra-cultura mesmo.Pessoalmente, eu tenho medo de usar bike ou moto na selvageria desse trânsito. Mas o importante é cada um encontrar a melhor solução para o seu perfil.William, no jargão dos alcoolicos anônimos (ja que somos uma espécies de dependentes em recuperação): 24 horas pra você! :)



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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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