O vendedor e as ideias para a Bienal
Os alemães, sempre muito atentos aonde vão e sempre procurando preparar tudo, costumam pesquisar bastante e preparar muito bem aonde vão. Para a viagem a São Paulo, à atual Bienal Internacional de Arquitetura, não é diferente. Em guias de viagem e por meio de relatos, foram informados de que a Vila Madalena é um dinâmico e interessante bairro com uma enorme oferta de bares, clubes e restaurantes. Quiseram, naturalmente, ir para um deles, em um dos escassos momentos reservados para se conhecer a cidade. Pude acompanhá-los nessa visita: fomos para a Vila e lá encontramos o Mauro.
O Mauro é um vendedor de rua de bebidas que, aos domingos, estaciona seu carro gratuitamente em uma vaga na rua Girassol – exatamente lá onde particulares pagam, via de regra, 14 reais para deixarem seus veículos em estacionamentos improvisados e valets. Daquele ponto da rua, maneja sua mesa de trabalho montada sobre sua calçada e apoiada no próprio carro. Cabelos curtos encaracolados, olhos verdes, boa pinta, boa conversa.
Aos clientes, Mauro apresenta as batidas sempre na mesma ordem, do garrafão da esquerda para a da direita: morango com goiaba, maracujá, espanhola e abacaxi com hortelã. A apresentação da batida de maracujá merece sempre a observação de que é fruta de verdade. O resto da mesa é dominado por uma irregularidade na disposição de vidros, balde de gelo e área de trabalho. O porta-malas é tomado por um isopor gigante com latas de energéticos, cerveja e refrigerante.
Quem cuida do isopor é o primo. O filho (segundo ele, um dos quatro) toma conta de tudo, na companhia de um amigo. Do outro lado da rua, também atrás de uma barraca, está o irmão, um tipo que se dispõe a abandonar o que está fazendo para buscar a informação de onde acontecerá um show de rap na zona oeste da cidade. Mauro fica rodeado de gente de confiança, da família, que aparece quando o trabalho é muito. Mauro age em rede.
E age sem pressa, sabendo negociar. Ficamos meia hora por ali, só esperando a preparação das sete caipirinhas com o prometido desconto de 20%. Todos estavam com os olhos grandes em cima de seu processo de trabalho. Primeiro, descascou uma laranja e disse que seria para compensar a acidez do limão. Depois, abriu a garrafa de vodca para misturar à fazer caipirinhas. Aqueles alemães que tinham alguma noção de o que estavam pedindo ficaram confusos. Laranja e vodca em limonada? Terminada a terceira caipirinha, ele começa a enfeitar um abacaxi. “Vou ser sincero com você: esqueci a garrafa de pinga em casa...”
Samba e pagode ao vivo e a cores, gente que toma a rua e o estande, o carro, o comércio, a conversa do Mauro como ponto central. Algo bem diferente para quem associava Vila Madalena a descolados lugares fechados, como boteco ou restaurante.
Um estudante logo percebeu que a experiência com o Mauro trazia vários insights para compreender a formação do espaço urbano no Brasil. Informalidade, improviso, criatividade, despojamento, comunicação, flexibilidade...
Hoje fomos visitar favelas, áreas de ocupação e conjuntos habitacionais em Diadema. O modelo Mauro valeu a pena.
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