FILANTROPIA DE RESULTADOS
Daniela Barone faz o Reino Unido mais feliz
Nem sempre a simples doação de dinheiro para entidades do terceiro setor garante o sucesso de projetos. Muitas vezes essas entidades precisam mais: necessitam aprender como administrar recursos, realizar um planejamento estratégico e viabilizar soluções. É isso o que a brasileira Daniela Barone, à frente da ONG Impetus Trust,em Londres. Por isso ela integra a Happy List do jornal inglês The Independent
Suzana Camargo, de Zurique – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 20/10/2009
Aos 38 anos, Daniela tira grande parte de seu conhecimento da carreira no mercado financeiro, onde esteve durante vários anos. Formada em economia pela Universidade Estadual de Campinas, ela fez MBA na prestigiada Harvard Business School, nos Estados Unidos.
Recentemente a economista teve o rosto estampado nas capas dos principais jornais britânicos ao ser incluída na “Happy List”, uma lista divulgada anualmente pelo jornal “The Independent” com o nome das 100 pessoas que fazem o Reino Unido mais feliz e um lugar melhor para viver.
O esforço de Daniela e sua equipe na Impetus Trust tem garantido que entidades filantrópicas se tornem mais sustentáveis a longo prazo e produzam um impacto maior na vida de milhares de pessoas.
Em entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável, Daniela explicou como é possível implementar o pragmatismo na filantropia e falou sobre a emoção de ver resultados reais.
Qual foi seu primeiro contato com a filantropia?
Eu comecei a fazer trabalho voluntário ainda no colégio, quando tinha uns 12 anos, em São Paulo. Havia um programa muito ativo de voluntariado, em que fazíamos visitas a orfanatos, asilos, entidades de apoio a deficientes. Nós podíamos escolher onde queríamos ir e realizávamos atividades nesses locais: teatrinhos e brincadeiras para as crianças, bate-papo com idosos. Era uma coisa lúdica, mas que já nos deixava muito conscientes sobre as diferentes realidades das pessoas.
Quando você começou a trabalhar profissionalmente nessa área?
Durante 15 anos, trabalhei com bancos no mercado financeiro: no Brasil, Estados Unidos e Europa. Em 2004, já morando na Inglaterra, comecei a trabalhar na ONG Save the Children . Eu gerenciava uma equipe de 22 pessoas e era responsável por planejamento e execução de estratégias, arrecadação de dinheiro e lançamento de novos programas internacionais.
Como você chegou na Impetus Trust?
Foi uma dessas coincidências do destino. Eu já conhecia e admirava o trabalho da Impetus . Durante uma reunião de trabalho, no prédio da Impetus, fiquei sabendo que eles estavam procurando um chief executive (chefe executivo) e fui convidada a participar do processo seletivo.
Qual é seu papel dentro da organização?
Eu sou responsável pela organização inteira. Hoje somos 15 pessoas aqui, mas, quando cheguei, a Impetus só tinha sido fundada há três anos, e éramos eu e mais duas pessoas. Fui contratada para tornar a empresa mais conhecida, melhorar a performance, estabelecer estratégias mais focadas. Hoje sempre somos consultados pelo governo britânico quando há alguma ação sendo feita com o terceiro setor e recebemos apoio e suporte financeiro das fundações mais tradicionais da Inglaterra.
O que exatamente a Impetus faz?
A Impetus tem um processo bastante rigoroso para selecionar ONGs que irão fazer parte do portfólio. Depois de escolhidas, nós definimos, junto com a organização, um plano de impacto social para os próximos quatro ou cinco anos. Esse plano é desenvolvido e metas são estipuladas para cada ano. É a Impetus que identifica quais serão as áreas prioritárias para o crescimento da organização. Quando há falta de um profissional específico para algum setor, por exemplo, vamos atrás da pessoa ideal. Ou então, contactamos as empresas parceiras para capacitar e educar o pessoal da ONG nesse expertise. Quem coordena todo esse trabalho é a Impetus.
Existe algum tipo de empresa mais disposta a se engajar na área filantrópica?
Como esse é o nosso posicionamento - capacitar as ONGs para que administrem e gerenciem melhor, tornando-se sustentáveis a longo prazo -, empresas ligadas ao setor de negócios geralmente são entusiastas dos nossos projetos e gostam de ajudar. Temos como parceiros empresas de advocacia, consultoria, contabilidade, relações públicas e bancos. E também contamos com a filantropia individual, que é muito comum na Inglaterra.
Essas empresas já investiam no terceiro setor?
Algumas sim, outras não. Mas o que acontece, tanto no Brasil como aqui, é que se faz um tipo de trabalho voluntário muito desestruturado, muito baseado no indivíduo. Às vezes, o que acontece é que há um único funcionário batalhando por um projeto. Ou então são pequenas ações como o banqueiro que vai pintar paredes ou arrumar o jardim da ONG. Francamente, além deles não saberem pintar direito, isso dá mais trabalho para a organização do que ajuda.
Como é a relação da Impetus com esses parceiros?
A parceria com a Impetus visa que essas empresas já destinem, em seus orçamentos, gastos fixos com filantropia, investindo em três ou quatro projetos durante o ano. Deixamos bem claro que não se quer agradar a empresa, mas alcançar objetivos para as ONGs com o conhecimento e expertise que elas têm. É uma mudança na forma como muitas empresas se engajam com o terceiro setor. Até então, como as companhias estavam doando dinheiro, queriam impor às ONGs o que elas queriam que elas fizessem porque achavam que podiam mandar.
Essa ajuda é só financeira?
Não, varia. Tem gente que só dá pro-bono, outros só dinheiro. Procuramos experts que possam ajudar na capacitação das ONGs, então algumas empresas parceiras da Impetus não dão recursos, mas oferecem trabalho pro-bono de seus funcionários. Não significa que eles estão ajudando nos finais de semana ou no tempo livre, mas no horário normal do trabalho deles, ou seja, a empresa está pagando por esse serviço prestado. Oferecemos os projetos aos nossos parceiros e eles nos dizem como e com qual gostariam de colaborar.
Como esses funcionários se sentem ao doar conhecimento para o terceiro setor?
O que vemos é que, mesmo depois de um projeto ter acabado, muitas pessoas continuam colaborando informalmente, tal o prazer que tiverem em ajudar.
Como é feita a arrecadação de fundos para os projetos?
Quem recebe todo o dinheiro é a Impetus que administra os recursos para cada projeto. Dessa maneira, evitamos que as organizações fiquem na mão caso alguma empresa deixe de contribuir financeiramente e esteja ligada com um projeto específico. As empresas doam o quanto podem. Se quiserem dar um cheque e nunca mais, tudo bem. Quem tem comprometimento de quatro a cinco anos com a ONG é a Impetus. Esse é exatamente o nosso objetivo. Tornar as organizações estáveis e sustentáveis, sem serem completamente dependentes de doações.
Qual é o efeito do trabalho da Impetus nas ONGs?
Através da capacitação e do planejamento estratégico, elas conseguem se focar no que fazem melhor e ter um impacto muito maior socialmente.
Que experiências ou resultados já a emocionaram nesses últimos três anos?
Eu me emociono o tempo todo. E fico supersatisfeita em ver resultados. Quando vou visitar uma ONG e vejo as pessoas que ela está ajudando e o impacto na vida delas, me emociono. Tem uma organização que a gente já ajuda há muito tempo, a Camfed - Girls' Education and Women's Empowerment in Africa, que dá bolsas de estudos para meninas extremamente pobres da África. Nos últimos três anos, ela multiplicou em quatro vezes o número de meninas que ajuda. Hoje são 80 mil jovens recebendo esse benefício.
Existe alguma singularidade desse seu trabalho com a Camfed?
Fizemos mudanças bem grandes na maneira como eles trabalhavam. Melhoramos o sistema de arrecadação de dinheiro para que tivessem recursos a longo prazo. A Camfed também queria expandir o projeto para mais países africanos, mas juntos vimos que o ideal era continuar focando em somente quatro países e financiar por mais tempo as bolsas de estudo que as meninas recebiam, assim elas poderiam fazer um curso técnico ou uma faculdade. O impacto na comunidade foi muito maior: as meninas que se beneficiaram com o projeto conseguiram arrumar emprego e agora ajudam outras jovens e a família. A ideia é que, com o passar dos anos, essas vilas da África se tornem autosustentáveis e não dependam mais do dinheiro daqui.
Como você avalia o trabalho das ONGs brasileiras?
Estou há muito tempo fora do Brasil e quando saí de lá ainda não trabalhava com o terceiro setor, por isso não posso citar nomes ou exemplos. O que sei é que há muitos projetos inovadores e interessantes. O Brasil não deve nada a ninguém em termos de ideias e pessoas que conseguem implementar soluções criativas, mas esbarram no mesmo problema de ONGs pequenas e médias daqui: a falta de profissionalização na parte gerencial e administrativa.
E a filantropia no Brasil?
Acho que ainda está engatinhando. Li uma pesquisa que mostrava que a América Latina doa muito pouco para filantropia. Há uma percentagem muito pequena de pessoas ricas doando dinheiro para o terceiro setor.
E qual foi a sensação de ver seu nome na Happy List?
Foi muito, muito legal. Quando vi a lista, foi uma grande surpresa, pois estou ao lado de nomes importantíssimos na Inglaterra. Nunca imaginei que seria escolhida para a Happy List.
Aos 38 anos, Daniela tira grande parte de seu conhecimento da carreira no mercado financeiro, onde esteve durante vários anos. Formada em economia pela Universidade Estadual de Campinas, ela fez MBA na prestigiada Harvard Business School, nos Estados Unidos.
Recentemente a economista teve o rosto estampado nas capas dos principais jornais britânicos ao ser incluída na “Happy List”, uma lista divulgada anualmente pelo jornal “The Independent” com o nome das 100 pessoas que fazem o Reino Unido mais feliz e um lugar melhor para viver.
O esforço de Daniela e sua equipe na Impetus Trust tem garantido que entidades filantrópicas se tornem mais sustentáveis a longo prazo e produzam um impacto maior na vida de milhares de pessoas.
Em entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável, Daniela explicou como é possível implementar o pragmatismo na filantropia e falou sobre a emoção de ver resultados reais.
Qual foi seu primeiro contato com a filantropia?
Eu comecei a fazer trabalho voluntário ainda no colégio, quando tinha uns 12 anos, em São Paulo. Havia um programa muito ativo de voluntariado, em que fazíamos visitas a orfanatos, asilos, entidades de apoio a deficientes. Nós podíamos escolher onde queríamos ir e realizávamos atividades nesses locais: teatrinhos e brincadeiras para as crianças, bate-papo com idosos. Era uma coisa lúdica, mas que já nos deixava muito conscientes sobre as diferentes realidades das pessoas.
Quando você começou a trabalhar profissionalmente nessa área?
Durante 15 anos, trabalhei com bancos no mercado financeiro: no Brasil, Estados Unidos e Europa. Em 2004, já morando na Inglaterra, comecei a trabalhar na ONG Save the Children . Eu gerenciava uma equipe de 22 pessoas e era responsável por planejamento e execução de estratégias, arrecadação de dinheiro e lançamento de novos programas internacionais.
Como você chegou na Impetus Trust?
Foi uma dessas coincidências do destino. Eu já conhecia e admirava o trabalho da Impetus . Durante uma reunião de trabalho, no prédio da Impetus, fiquei sabendo que eles estavam procurando um chief executive (chefe executivo) e fui convidada a participar do processo seletivo.
Qual é seu papel dentro da organização?
Eu sou responsável pela organização inteira. Hoje somos 15 pessoas aqui, mas, quando cheguei, a Impetus só tinha sido fundada há três anos, e éramos eu e mais duas pessoas. Fui contratada para tornar a empresa mais conhecida, melhorar a performance, estabelecer estratégias mais focadas. Hoje sempre somos consultados pelo governo britânico quando há alguma ação sendo feita com o terceiro setor e recebemos apoio e suporte financeiro das fundações mais tradicionais da Inglaterra.
O que exatamente a Impetus faz?
A Impetus tem um processo bastante rigoroso para selecionar ONGs que irão fazer parte do portfólio. Depois de escolhidas, nós definimos, junto com a organização, um plano de impacto social para os próximos quatro ou cinco anos. Esse plano é desenvolvido e metas são estipuladas para cada ano. É a Impetus que identifica quais serão as áreas prioritárias para o crescimento da organização. Quando há falta de um profissional específico para algum setor, por exemplo, vamos atrás da pessoa ideal. Ou então, contactamos as empresas parceiras para capacitar e educar o pessoal da ONG nesse expertise. Quem coordena todo esse trabalho é a Impetus.
Existe algum tipo de empresa mais disposta a se engajar na área filantrópica?
Como esse é o nosso posicionamento - capacitar as ONGs para que administrem e gerenciem melhor, tornando-se sustentáveis a longo prazo -, empresas ligadas ao setor de negócios geralmente são entusiastas dos nossos projetos e gostam de ajudar. Temos como parceiros empresas de advocacia, consultoria, contabilidade, relações públicas e bancos. E também contamos com a filantropia individual, que é muito comum na Inglaterra.
Essas empresas já investiam no terceiro setor?
Algumas sim, outras não. Mas o que acontece, tanto no Brasil como aqui, é que se faz um tipo de trabalho voluntário muito desestruturado, muito baseado no indivíduo. Às vezes, o que acontece é que há um único funcionário batalhando por um projeto. Ou então são pequenas ações como o banqueiro que vai pintar paredes ou arrumar o jardim da ONG. Francamente, além deles não saberem pintar direito, isso dá mais trabalho para a organização do que ajuda.
Como é a relação da Impetus com esses parceiros?
A parceria com a Impetus visa que essas empresas já destinem, em seus orçamentos, gastos fixos com filantropia, investindo em três ou quatro projetos durante o ano. Deixamos bem claro que não se quer agradar a empresa, mas alcançar objetivos para as ONGs com o conhecimento e expertise que elas têm. É uma mudança na forma como muitas empresas se engajam com o terceiro setor. Até então, como as companhias estavam doando dinheiro, queriam impor às ONGs o que elas queriam que elas fizessem porque achavam que podiam mandar.
Essa ajuda é só financeira?
Não, varia. Tem gente que só dá pro-bono, outros só dinheiro. Procuramos experts que possam ajudar na capacitação das ONGs, então algumas empresas parceiras da Impetus não dão recursos, mas oferecem trabalho pro-bono de seus funcionários. Não significa que eles estão ajudando nos finais de semana ou no tempo livre, mas no horário normal do trabalho deles, ou seja, a empresa está pagando por esse serviço prestado. Oferecemos os projetos aos nossos parceiros e eles nos dizem como e com qual gostariam de colaborar.
Como esses funcionários se sentem ao doar conhecimento para o terceiro setor?
O que vemos é que, mesmo depois de um projeto ter acabado, muitas pessoas continuam colaborando informalmente, tal o prazer que tiverem em ajudar.
Como é feita a arrecadação de fundos para os projetos?
Quem recebe todo o dinheiro é a Impetus que administra os recursos para cada projeto. Dessa maneira, evitamos que as organizações fiquem na mão caso alguma empresa deixe de contribuir financeiramente e esteja ligada com um projeto específico. As empresas doam o quanto podem. Se quiserem dar um cheque e nunca mais, tudo bem. Quem tem comprometimento de quatro a cinco anos com a ONG é a Impetus. Esse é exatamente o nosso objetivo. Tornar as organizações estáveis e sustentáveis, sem serem completamente dependentes de doações.
Qual é o efeito do trabalho da Impetus nas ONGs?
Através da capacitação e do planejamento estratégico, elas conseguem se focar no que fazem melhor e ter um impacto muito maior socialmente.
Que experiências ou resultados já a emocionaram nesses últimos três anos?
Eu me emociono o tempo todo. E fico supersatisfeita em ver resultados. Quando vou visitar uma ONG e vejo as pessoas que ela está ajudando e o impacto na vida delas, me emociono. Tem uma organização que a gente já ajuda há muito tempo, a Camfed - Girls' Education and Women's Empowerment in Africa, que dá bolsas de estudos para meninas extremamente pobres da África. Nos últimos três anos, ela multiplicou em quatro vezes o número de meninas que ajuda. Hoje são 80 mil jovens recebendo esse benefício.
Existe alguma singularidade desse seu trabalho com a Camfed?
Fizemos mudanças bem grandes na maneira como eles trabalhavam. Melhoramos o sistema de arrecadação de dinheiro para que tivessem recursos a longo prazo. A Camfed também queria expandir o projeto para mais países africanos, mas juntos vimos que o ideal era continuar focando em somente quatro países e financiar por mais tempo as bolsas de estudo que as meninas recebiam, assim elas poderiam fazer um curso técnico ou uma faculdade. O impacto na comunidade foi muito maior: as meninas que se beneficiaram com o projeto conseguiram arrumar emprego e agora ajudam outras jovens e a família. A ideia é que, com o passar dos anos, essas vilas da África se tornem autosustentáveis e não dependam mais do dinheiro daqui.
Como você avalia o trabalho das ONGs brasileiras?
Estou há muito tempo fora do Brasil e quando saí de lá ainda não trabalhava com o terceiro setor, por isso não posso citar nomes ou exemplos. O que sei é que há muitos projetos inovadores e interessantes. O Brasil não deve nada a ninguém em termos de ideias e pessoas que conseguem implementar soluções criativas, mas esbarram no mesmo problema de ONGs pequenas e médias daqui: a falta de profissionalização na parte gerencial e administrativa.
E a filantropia no Brasil?
Acho que ainda está engatinhando. Li uma pesquisa que mostrava que a América Latina doa muito pouco para filantropia. Há uma percentagem muito pequena de pessoas ricas doando dinheiro para o terceiro setor.
E qual foi a sensação de ver seu nome na Happy List?
Foi muito, muito legal. Quando vi a lista, foi uma grande surpresa, pois estou ao lado de nomes importantíssimos na Inglaterra. Nunca imaginei que seria escolhida para a Happy List.