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Muito além da Flip
A Festa Literária Internacional de Paraty, que aconteceu no início do mês, não foi apenas um encontro de autores, editoras e de público ávido por leitura. Paralelamente, foi uma grande oportunidade para incentivar a cultura local, tanto literária e educacional como gastronômica. E também para manifestações contra a especulação imobiliária na região
Thiago Carrapatoso
Planeta Sustentável - 14/07/2009
Muito se falou da Flip, que dominou a cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, no início do mês. Foi um dos maiores encontros realizados entre autores, editoras e um público cansado de conhecer as ideias de um escritor apenas por letras escritas e não faladas. Sua sexta edição - sempre procurando incentivar a cultura, principalmente a da leitura, em um país no qual “não se lê”, como diz o bordão - reuniu muitos artistas internacionais, mas poucos nacionais. Mas, afinal, o que ainda faltou dizer sobre esse evento e o que aconteceu de interessante. por lá, que tenha a ver com sustentabilidade? Muito!
Teve a OFF Flip - criada pelos moradores locais -, o movimento Gastronomia Sustentável, manifestações das comunidades de quilombolas, caiçaras e indígenas e, também, a Flipinha, que já se firmou como grande oportunidade para disseminar a leitura e o entendimento dos autores que serão homenageados na grande festa.
CULTURA LOCAL
“A OFF Flip surgiu porque os moradores de Paraty se sentiram incomodados por não ter participado da primeira edição do evento”, conta Luiz Perequê, cantor e compositor que dirige o Instituto Silo Cultural da cidade e que ajudou a criar a programação do evento paralelo à festa literária.
Foi neste espaço que aconteceu, por exemplo, o lançamento do CD “Tradição e Influências”, que reuniu os mestres da ciranda e de ritmos comuns à cultura caiçara (como o fandango para um registro histórico que fará parte do documentário “Dias de Caiçara”, ainda a ser lançado.
“É preciso deixar claro a diferença entre manifestação e produção culturais. Quando um cirandeiro vai para a festa de aniversário de um amigo tocar, isso é manifestação. Agora, quando ele começa a cobrar para ir à mesma festa, a cultura tradicional já virou um produto. Não existe mais o sentimento quase religioso por trás da música”, ressalta. Para que a cultura tradicional não perca suas raízes e sua considerada religiosidade, deve-se ter políticas públicas que sustentem o artista nas épocas de baixa temporada, como é comum em uma cidade turistíca como Paraty.
GASTRONOMIA SUSTENTÁVEL
Para preservar a gastronomia local, surgiu um movimento em Paraty que prega a Gastronomia Sustentável. Isso aconteceu há dez anos, quando a comunidade e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) começaram a trabalhar juntos para aplicar a Agenda 21 para a Indústria de Viagens e Turismo para o Desenvolvimento Sustentável na região.
Seu objetivo é estimular os restaurantes a usar produtos locais, incentivando a identidade gastronômica. Assim, pratos como a lasca de peixe seco com farinha, manuê de bacia, enroladinho de peixe e camarão com bertalha e risotinho com ovo caipira estrelado podem usar ingredientes como beiju, aipim, banana da terra ou pupunha, todos produzidos de forma orgânica e incentivando a cadeia de produção local.
“Nós temos que recuperar as terras que foram abandonadas por causa da marginalização das comunidades originais, como os quilombolas, indígenas e caiçaras. Queremos incentivar os restaurantes a fazer pratos baseados na cultura local. Para isso, plantamos as 'espécies do futuro', pois a geração que planta não é a que vai colher.
Quando um francês vem para cá, ele não quer comer escargô. Ele quer comer o prato típico da região”, explica Domingos de Oliveira, representante da Rede de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (DLIS). “Às vezes, até se plantam espécies exóticas da região, mas é para evitar um mal maior, que é o nativo perder sua terra e seu sustento”.
QUILOMBOLAS, CAIÇARAS E INDÍGENAS
Uma marcha reuniu cerca de 400 pessoas e percorreu o Centro Histórico para mostrar aos visitantes o contexto da agradável estadia na cidade. Representantes das comunidades de quilombolas, caiçaras e indígenas seguravam faixas alertando para a não-preocupação com suas culturas e a desapropriação de terras para a construção de condomínios de luxo.
Depois da construção da rodovia Rio-Santos - como é mais conhecida -, próximo de 1970, as comunidades viram as suas terras inseridas em uma trama de especulação imobiliária, envolvendo grandes empresas internacionais como a canadense Brascam e a WhiteMartins, segundo contam os moradores da região.
“Chico Buarque encontrou comigo e com os líderes das comunidades antes de sua palestra para entender a situação. Por isso que ele deu o seu apoio no final da palestra, dizendo que estava ciente de nossa luta. Ele até se propôs a assinar um manifesto em prol das comunides”, conta Perequê, que foi o responsável pela articulação do encontro.
CAPACITAÇÃO DE PROFESSORES
A Flipinha foi outra atração especial. É destinada ao público infantil e envolve projetos de capacitação de professores e oficinas para melhorar o uso da literatura na sala de aula. Esse evento é considerado um termômetro das ações que acontecem durante o ano inteiro, envolvendo a rede privada de ensino (que, no caso de uma cidade do interior, não possui tantos recursos quanto as encontradas nas capitais), as escolas públicas e sua organização.
“A Flipinha é a consequência das ações que aconteceram antes; ela nasceu de uma demanda. Os professores sentiram necessidade de se encontrar, de se reunir e mostrar o que tem sido feito e esta a parte mais interessante do evento”, explica Gabriela Gibrail, coordenadora do programa educativo da Flip.
Durante a Flip, que eles lançam uma cartilha com o resultado de todos os trabalhos de leitura feitos com as escolas e que antecedem o evento, o que inclui sugestões de trabalhos, na sala de aula, com os autores que serão homenageados. “Antes, tentamos transformar os alunos em mediadores de leitura, ou seja, que conhecessem as obras e indicassem para seus colegas. Agora, descobrimos que é mais eficaz transformar o professor neste mediador, para que ele trabalhe a cultura da leitura com os alunos”.
Muita coisa acontece fora da programação oficial da Flip em Paraty, cidade que é conhecida pela riqueza de seus aspectos culturais e históricos. O incentivo à cultura local deve surgir também por parte do público, homenageando os artistas nacionais e as cadeias sustentáveis que estão ao redor dessa grande festa. É ela que dá ao evento literário um aspecto atraente diferenciado, que tanto tem atraído turistas.
Muito se falou da Flip, que dominou a cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, no início do mês. Foi um dos maiores encontros realizados entre autores, editoras e um público cansado de conhecer as ideias de um escritor apenas por letras escritas e não faladas. Sua sexta edição - sempre procurando incentivar a cultura, principalmente a da leitura, em um país no qual “não se lê”, como diz o bordão - reuniu muitos artistas internacionais, mas poucos nacionais. Mas, afinal, o que ainda faltou dizer sobre esse evento e o que aconteceu de interessante. por lá, que tenha a ver com sustentabilidade? Muito!
Teve a OFF Flip - criada pelos moradores locais -, o movimento Gastronomia Sustentável, manifestações das comunidades de quilombolas, caiçaras e indígenas e, também, a Flipinha, que já se firmou como grande oportunidade para disseminar a leitura e o entendimento dos autores que serão homenageados na grande festa.
CULTURA LOCAL
“A OFF Flip surgiu porque os moradores de Paraty se sentiram incomodados por não ter participado da primeira edição do evento”, conta Luiz Perequê, cantor e compositor que dirige o Instituto Silo Cultural da cidade e que ajudou a criar a programação do evento paralelo à festa literária.
Foi neste espaço que aconteceu, por exemplo, o lançamento do CD “Tradição e Influências”, que reuniu os mestres da ciranda e de ritmos comuns à cultura caiçara (como o fandango para um registro histórico que fará parte do documentário “Dias de Caiçara”, ainda a ser lançado.
“É preciso deixar claro a diferença entre manifestação e produção culturais. Quando um cirandeiro vai para a festa de aniversário de um amigo tocar, isso é manifestação. Agora, quando ele começa a cobrar para ir à mesma festa, a cultura tradicional já virou um produto. Não existe mais o sentimento quase religioso por trás da música”, ressalta. Para que a cultura tradicional não perca suas raízes e sua considerada religiosidade, deve-se ter políticas públicas que sustentem o artista nas épocas de baixa temporada, como é comum em uma cidade turistíca como Paraty.
GASTRONOMIA SUSTENTÁVEL
Para preservar a gastronomia local, surgiu um movimento em Paraty que prega a Gastronomia Sustentável. Isso aconteceu há dez anos, quando a comunidade e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) começaram a trabalhar juntos para aplicar a Agenda 21 para a Indústria de Viagens e Turismo para o Desenvolvimento Sustentável na região.
Seu objetivo é estimular os restaurantes a usar produtos locais, incentivando a identidade gastronômica. Assim, pratos como a lasca de peixe seco com farinha, manuê de bacia, enroladinho de peixe e camarão com bertalha e risotinho com ovo caipira estrelado podem usar ingredientes como beiju, aipim, banana da terra ou pupunha, todos produzidos de forma orgânica e incentivando a cadeia de produção local.
“Nós temos que recuperar as terras que foram abandonadas por causa da marginalização das comunidades originais, como os quilombolas, indígenas e caiçaras. Queremos incentivar os restaurantes a fazer pratos baseados na cultura local. Para isso, plantamos as 'espécies do futuro', pois a geração que planta não é a que vai colher.
Quando um francês vem para cá, ele não quer comer escargô. Ele quer comer o prato típico da região”, explica Domingos de Oliveira, representante da Rede de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (DLIS). “Às vezes, até se plantam espécies exóticas da região, mas é para evitar um mal maior, que é o nativo perder sua terra e seu sustento”.
QUILOMBOLAS, CAIÇARAS E INDÍGENAS
Uma marcha reuniu cerca de 400 pessoas e percorreu o Centro Histórico para mostrar aos visitantes o contexto da agradável estadia na cidade. Representantes das comunidades de quilombolas, caiçaras e indígenas seguravam faixas alertando para a não-preocupação com suas culturas e a desapropriação de terras para a construção de condomínios de luxo.
Depois da construção da rodovia Rio-Santos - como é mais conhecida -, próximo de 1970, as comunidades viram as suas terras inseridas em uma trama de especulação imobiliária, envolvendo grandes empresas internacionais como a canadense Brascam e a WhiteMartins, segundo contam os moradores da região.
“Chico Buarque encontrou comigo e com os líderes das comunidades antes de sua palestra para entender a situação. Por isso que ele deu o seu apoio no final da palestra, dizendo que estava ciente de nossa luta. Ele até se propôs a assinar um manifesto em prol das comunides”, conta Perequê, que foi o responsável pela articulação do encontro.
CAPACITAÇÃO DE PROFESSORES
A Flipinha foi outra atração especial. É destinada ao público infantil e envolve projetos de capacitação de professores e oficinas para melhorar o uso da literatura na sala de aula. Esse evento é considerado um termômetro das ações que acontecem durante o ano inteiro, envolvendo a rede privada de ensino (que, no caso de uma cidade do interior, não possui tantos recursos quanto as encontradas nas capitais), as escolas públicas e sua organização.
“A Flipinha é a consequência das ações que aconteceram antes; ela nasceu de uma demanda. Os professores sentiram necessidade de se encontrar, de se reunir e mostrar o que tem sido feito e esta a parte mais interessante do evento”, explica Gabriela Gibrail, coordenadora do programa educativo da Flip.
Durante a Flip, que eles lançam uma cartilha com o resultado de todos os trabalhos de leitura feitos com as escolas e que antecedem o evento, o que inclui sugestões de trabalhos, na sala de aula, com os autores que serão homenageados. “Antes, tentamos transformar os alunos em mediadores de leitura, ou seja, que conhecessem as obras e indicassem para seus colegas. Agora, descobrimos que é mais eficaz transformar o professor neste mediador, para que ele trabalhe a cultura da leitura com os alunos”.
Muita coisa acontece fora da programação oficial da Flip em Paraty, cidade que é conhecida pela riqueza de seus aspectos culturais e históricos. O incentivo à cultura local deve surgir também por parte do público, homenageando os artistas nacionais e as cadeias sustentáveis que estão ao redor dessa grande festa. É ela que dá ao evento literário um aspecto atraente diferenciado, que tanto tem atraído turistas.