ideias
Lá vêm eles de novo
Em SuperFreakonomics, que chega às livrarias americanas nesta semana, Steven Levitt e Stephen Dubner desafiam o pensamento convencional e reafirmam o poder da mente para evitar catástrofes
Giuliano Guandalini
Revista Veja – 21/10/2009
[img1]Uma das mais violentas erupções vulcânicas do último século ocorreu em 1991, nas Filipinas, quando a lava e a fumaça ejetadas pelo Monte Pinatubo mataram 250 pessoas (foto acima). As pavorosas consequências daquele desastre natural ainda são um pesadelo para a população local. Seu efeito global, no entanto, foi muito positivo. A erupção vulcânica lançou na atmosfera mais de 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre, cuja fórmula química é SO2. Um gás leve e opaco, o SO2 do Pinatubo subiu até a estratosfera e, em questão de meses, espalhou-se em uma camada, recobrindo todo o planeta. Essa camada funcionou como um filtro que diminuiu a incidência da radiação solar sobre a superfície da Terra.
Como resultado disso, a temperatura média do planeta caiu cerca de 0,5 grau. Essa constatação reabriu entre uma corrente de cientistas a ideia de produzir de modo artificial o mesmo resultado e, com isso, atacar o aquecimento global, evitando ou pelo menos adiando suas potenciais e desastrosas consequências. Quem chegou mais próximo de uma solução viável foram os pesquisadores americanos da Intellectual Ventures, de Seattle. Eles propuseram a montagem de um gigantesco chuveiro capaz de aspergir um volume de SO2 na estratosfera equivalente ao produzido pelas erupções vulcânicas. O custo? A operação consumiria 250 milhões de dólares, dinheiro de troco perto do 1,2 trilhão de dólares que, segundo cifras do famoso Relatório Stern, seriam necessários para evitar a chegada à atmosfera dos gases de efeito estufa, apontados como a principal causa do aquecimento global.
Resfriamento Global
Esse experimento é descrito em detalhes no capítulo que se anuncia como o mais controverso de SuperFreakonomics, o novo livro do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner, que chegará às livrarias americanas na terça-feira. A primeira obra da dupla, Freakonomics, lançada há quatro anos, celebrizou-se pela felicidade com que demonstrou como o uso da lógica e do pensamento econômico pode iluminar os mais diversos fenômenos, dando-lhes contornos definitivos e, muitas vezes, contrários ao senso comum. Agora, os autores dedicam todo um capítulo para, com as mesmas armas, tentar mostrar que o aquecimento global talvez não seja uma ameaça tão grande como se tem alardeado. Seriam duas as razões principais. A primeira é mais explosiva, pois considera, com base em pesquisas de alta qualidade, a possibilidade de o fenômeno nem existir. A segunda leva em conta o "efeito Pinatubo" e demonstra que o aquecimento global é um obstáculo que pode ser vencido pela técnica e pelo engenho humano da mesma forma que outras barreiras foram superadas na caminhada evolutiva da espécie. O livro aponta outros exageros catastrofistas sobre essa questão:
Há trinta anos, os cientistas estavam preocupados com o resfriamento global provocado pela poluição. Os dejetos lançados na atmosfera reduziam a incidência dos raios solares, esfriando o planeta. Com o controle da poluição, esse efeito diminuiu. O aquecimento atual nada mais seria do que um efeito positivo do melhor controle ambiental.
A atividade humana representa apenas 2% das emissões de gás carbônico (CO2), apontado com um dos vilões do efeito estufa. Os outros 98% vêm de atividades naturais, como a decomposição de plantas.
Nenhum estudo sério aponta o risco de a Flórida desaparecer do mapa por causa do aumento do nível do mar. Essa ameaça seria apenas uma das mentiras convenientes de Uma Verdade Inconveniente, filme do ex-vice-presidente americano e Nobel da Paz Al Gore.
Os modelos meteorológicos utilizados para prever a catástrofe são pouco críveis, porque não conseguem levar em consideração diversos fenômenos naturais – como a erupção do Pinatubo.
SuperFreakonomics reedita a parceria superbem-sucedida da habilidade para processar dados do economista Steven Levitt, da Universidade de Chicago, com o talento do jornalista Stephen Dubner. Foi dessa colaboração que resultou o best-seller Freakonomics, que vendeu mais de 3 milhões de cópias em todo o mundo – 200 000 delas no Brasil – ao unir a esquisitice (freak) com a economia (economics). O sucesso conquistado pela dupla pode ser medido pelo valor pago pela Campus/Elsevier para publicar o novo livro no Brasil: 200.000 dólares, dez vezes o desembolsado pelos direitos da primeira obra. "Em 2005, tratava-se de escritores desconhecidos. Fizemos uma aposta que felizmente deu certo", diz Claudio Rothmuller, presidente da Elsevier América Latina. A edição brasileira de SuperFreakonomics será lançada em meados de novembro e contará com uma tiragem inicial de 50 000 exemplares – dez vezes o normal para um livro de economia. A obra, afinal, desta vez já nasce como um best-seller e tem méritos de sobra para tanto.
Assim como no livro original, a relevância de SuperFreakonomics está em desafiar o senso comum, cruzando estatísticas recentes e históricas, colocando em sua devida perspectiva e dimensão fenômenos tão distintos quanto a prostituição nas ruas de Chicago, o altruísmo, o terrorismo, a crise no sistema de saúde americano ou a morte de militares. Mas, como disse Levitt em uma entrevista exclusiva a VEJA (leia a matéria seguinte), ele não se propõe a explicar todo e qualquer fenômeno econômico e social. "Só me interesso por estudar assuntos para os quais existam informações e estatísticas de boa qualidade", diz o economista. "Do contrário, haveria sempre o risco de chegar a conclusões equivocadas."
Ao ler o livro, descobre-se que os congestionamentos de cavalos e diligências em Nova York representavam um inconveniente superior em muito ao causado hoje pelo automóvel. Pilhas e pilhas de esterco malcheiroso se acumulavam nos becos, e havia mais vítimas do trânsito naquele tempo do que hoje. A propósito, graças ao cinto de segurança, um dispositivo simples e barato, a taxa de mortes nas estradas caiu 70%. Outro dado surpreendente: de 2002 a 2008, com as guerras no Afeganistão e no Iraque, morreram em média 1 643 militares americanos; nos anos 80, quando o país não combatia em nenhum grande conflito, a média de mortes foi de 2 100 – em geral, vítimas durante treinamentos. Por que será que temos medo de tubarões, se eles matam em média seis pessoas a cada ano, uma fração das 200 vítimas feitas por elefantes? Os autores são inteligentes o bastante para não se levarem a sério em demasia, e muitas das informações despejadas nas mais de 200 páginas do livro servem apenas para divertir e satisfazer a curiosidade. Mas é difícil ficar indiferente às suas análises e conclusões, em especial as que tratam de saúde. Tudo isso soa temerário? Esse é o mundo de SuperFreakonomics.
Veja também:
A arte de decifrar estatísticas
Os freakonomics atacam outra vez
[img1]Uma das mais violentas erupções vulcânicas do último século ocorreu em 1991, nas Filipinas, quando a lava e a fumaça ejetadas pelo Monte Pinatubo mataram 250 pessoas (foto acima). As pavorosas consequências daquele desastre natural ainda são um pesadelo para a população local. Seu efeito global, no entanto, foi muito positivo. A erupção vulcânica lançou na atmosfera mais de 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre, cuja fórmula química é SO2. Um gás leve e opaco, o SO2 do Pinatubo subiu até a estratosfera e, em questão de meses, espalhou-se em uma camada, recobrindo todo o planeta. Essa camada funcionou como um filtro que diminuiu a incidência da radiação solar sobre a superfície da Terra.
Como resultado disso, a temperatura média do planeta caiu cerca de 0,5 grau. Essa constatação reabriu entre uma corrente de cientistas a ideia de produzir de modo artificial o mesmo resultado e, com isso, atacar o aquecimento global, evitando ou pelo menos adiando suas potenciais e desastrosas consequências. Quem chegou mais próximo de uma solução viável foram os pesquisadores americanos da Intellectual Ventures, de Seattle. Eles propuseram a montagem de um gigantesco chuveiro capaz de aspergir um volume de SO2 na estratosfera equivalente ao produzido pelas erupções vulcânicas. O custo? A operação consumiria 250 milhões de dólares, dinheiro de troco perto do 1,2 trilhão de dólares que, segundo cifras do famoso Relatório Stern, seriam necessários para evitar a chegada à atmosfera dos gases de efeito estufa, apontados como a principal causa do aquecimento global.
Resfriamento Global
Esse experimento é descrito em detalhes no capítulo que se anuncia como o mais controverso de SuperFreakonomics, o novo livro do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner, que chegará às livrarias americanas na terça-feira. A primeira obra da dupla, Freakonomics, lançada há quatro anos, celebrizou-se pela felicidade com que demonstrou como o uso da lógica e do pensamento econômico pode iluminar os mais diversos fenômenos, dando-lhes contornos definitivos e, muitas vezes, contrários ao senso comum. Agora, os autores dedicam todo um capítulo para, com as mesmas armas, tentar mostrar que o aquecimento global talvez não seja uma ameaça tão grande como se tem alardeado. Seriam duas as razões principais. A primeira é mais explosiva, pois considera, com base em pesquisas de alta qualidade, a possibilidade de o fenômeno nem existir. A segunda leva em conta o "efeito Pinatubo" e demonstra que o aquecimento global é um obstáculo que pode ser vencido pela técnica e pelo engenho humano da mesma forma que outras barreiras foram superadas na caminhada evolutiva da espécie. O livro aponta outros exageros catastrofistas sobre essa questão:
Há trinta anos, os cientistas estavam preocupados com o resfriamento global provocado pela poluição. Os dejetos lançados na atmosfera reduziam a incidência dos raios solares, esfriando o planeta. Com o controle da poluição, esse efeito diminuiu. O aquecimento atual nada mais seria do que um efeito positivo do melhor controle ambiental.
A atividade humana representa apenas 2% das emissões de gás carbônico (CO2), apontado com um dos vilões do efeito estufa. Os outros 98% vêm de atividades naturais, como a decomposição de plantas.
Nenhum estudo sério aponta o risco de a Flórida desaparecer do mapa por causa do aumento do nível do mar. Essa ameaça seria apenas uma das mentiras convenientes de Uma Verdade Inconveniente, filme do ex-vice-presidente americano e Nobel da Paz Al Gore.
Os modelos meteorológicos utilizados para prever a catástrofe são pouco críveis, porque não conseguem levar em consideração diversos fenômenos naturais – como a erupção do Pinatubo.
SuperFreakonomics reedita a parceria superbem-sucedida da habilidade para processar dados do economista Steven Levitt, da Universidade de Chicago, com o talento do jornalista Stephen Dubner. Foi dessa colaboração que resultou o best-seller Freakonomics, que vendeu mais de 3 milhões de cópias em todo o mundo – 200 000 delas no Brasil – ao unir a esquisitice (freak) com a economia (economics). O sucesso conquistado pela dupla pode ser medido pelo valor pago pela Campus/Elsevier para publicar o novo livro no Brasil: 200.000 dólares, dez vezes o desembolsado pelos direitos da primeira obra. "Em 2005, tratava-se de escritores desconhecidos. Fizemos uma aposta que felizmente deu certo", diz Claudio Rothmuller, presidente da Elsevier América Latina. A edição brasileira de SuperFreakonomics será lançada em meados de novembro e contará com uma tiragem inicial de 50 000 exemplares – dez vezes o normal para um livro de economia. A obra, afinal, desta vez já nasce como um best-seller e tem méritos de sobra para tanto.
Assim como no livro original, a relevância de SuperFreakonomics está em desafiar o senso comum, cruzando estatísticas recentes e históricas, colocando em sua devida perspectiva e dimensão fenômenos tão distintos quanto a prostituição nas ruas de Chicago, o altruísmo, o terrorismo, a crise no sistema de saúde americano ou a morte de militares. Mas, como disse Levitt em uma entrevista exclusiva a VEJA (leia a matéria seguinte), ele não se propõe a explicar todo e qualquer fenômeno econômico e social. "Só me interesso por estudar assuntos para os quais existam informações e estatísticas de boa qualidade", diz o economista. "Do contrário, haveria sempre o risco de chegar a conclusões equivocadas."
Ao ler o livro, descobre-se que os congestionamentos de cavalos e diligências em Nova York representavam um inconveniente superior em muito ao causado hoje pelo automóvel. Pilhas e pilhas de esterco malcheiroso se acumulavam nos becos, e havia mais vítimas do trânsito naquele tempo do que hoje. A propósito, graças ao cinto de segurança, um dispositivo simples e barato, a taxa de mortes nas estradas caiu 70%. Outro dado surpreendente: de 2002 a 2008, com as guerras no Afeganistão e no Iraque, morreram em média 1 643 militares americanos; nos anos 80, quando o país não combatia em nenhum grande conflito, a média de mortes foi de 2 100 – em geral, vítimas durante treinamentos. Por que será que temos medo de tubarões, se eles matam em média seis pessoas a cada ano, uma fração das 200 vítimas feitas por elefantes? Os autores são inteligentes o bastante para não se levarem a sério em demasia, e muitas das informações despejadas nas mais de 200 páginas do livro servem apenas para divertir e satisfazer a curiosidade. Mas é difícil ficar indiferente às suas análises e conclusões, em especial as que tratam de saúde. Tudo isso soa temerário? Esse é o mundo de SuperFreakonomics.
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Os freakonomics atacam outra vez