entrevista
Microcrédito não é agiotagem
Para Muhammad Yunus, o mais fervoroso entusiasta da indústria de financiamentos de pequeno valor, algumas instituições financeiras estão lucrando demais com esse Mercado
Por Ana Luiza Herzog
Revista Exame - 21/08/2008
Há mais de três décadas, o bangladeshiano Muhammad Yunus, de 68 anos, empunha a mesma bandeira: a de que emprestar dinheiro aos pobres é ao mesmo tempo um bom negócio e uma arma poderosa para tirá-los da miséria. Seu principal argumento a favor da tese além dos de cunho humanitário, é claro é o crescimento do Grameen, o banco que ele mesmo criou e que se transformou na maior instituição de microcrédito do mundo.
Com quase 7,5 milhões de clientes e mais de 7 bilhões de dólares em empréstimos distribuídos ao longo de 30 anos, a instituição provou-se também um negócio rentável, com lucro de quase 22 milhões de dólares nos últimos dois anos. Graças a essa fórmula, em 2006 o banqueiro dos pobres (como ele ficou conhecido) ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Recentemente, Yunus passou a se dedicar a duas missões. Uma delas é disseminar o conceito de social business, que ele mesmo criou para definir iniciativas empresariais cujo principal objetivo não é obter lucros altos, mas atender às demandas da população excluída do mercado de consumo.
A outra é brigar publicamente com as instituições financeiras que, segundo ele, estão distorcendo o conceito de microcrédito. Seu alvo de ataque preferencial é o Compartamos, banco mexicano que nasceu como uma ONG e se transformou num dos mais rentáveis do país ao oferecer crédito a con sumidores de baixa renda com juros de 76% ao ano. A seguir, trechos de uma entrevista concedida por Yunus com exclusividade:
Por que o desempenho do banco mexicano Compartamos o incomoda tanto?
Esse banco está lucrando muito ao conceder empréstimos com juros extremamente altos. Por isso, não acho que ele deva ser considerado uma instituição financeira de microcrédito. Essa é uma importante distinção que precisa ser feita. Microcrédito significa ajudar as pessoas a superar a pobreza. Não pode ser entendido como uma oportunidade para fazer rios de dinheiro tirando vantagem dos pobres. Aqueles que se aproveitam dos pobres para lucrar devem ser chamados de agiotas. Criei um modelo de negócios para que os pobres deixassem de ser reféns desses abusos e não vou permitir que instituições que distorcem meu conceito usem o termo microcrédito.
Para especialistas, o crescimento e a abertura de capital do Compartamos são sinais positivos de que o microcrédito finalmente deixará de ser um nicho dentro do mercado financeiro para se transformar num setor de peso. Essa expansão não é positiva?
De forma alguma me oponho à idéia de as instituições de microcrédito ganharem tamanho. O Grameen tem 7,5 milhões de clientes atualmente e pode chegar a 100 milhões. Só quero que elas continuem fazendo a coisa certa. Independentemente do tamanho, essas instituições devem seguir a premissa básica que me inspirou a criar o banco, que é não explorar os pobres.
O senhor endossou recentemente a criação da MicroFinance Transparency (Transparência em microfi nanças), uma ONG que tem o objetivo de monitorar o comportamento das instituições de microcrédito no mundo todo. Por que isso é importante?
Há muitos competidores no mercado de microcrédito hoje e vários deles estão se apropriando espertamente do termo para crescer. Há muita gente propagandeando taxas de juro muito baixas quando, na verdade, elas são altíssimas. Ou seja, escondem suas verdadeiras intenções e o preço real do que cobram dos clientes.
E de que maneira a MF Transparency vai combater isso?
Há uma lei nos Estados Unidos, a Truth in Lending (algo como Verdade ao emprestar). Graças a ela, todas as informações relacionadas a empréstimos são apresentadas de maneira padronizada e clara. Assim, as pessoas sabem exatamente os valores que estão sendo cobrados na operação e podem comparar as ofertas. Já está na hora de termos algo semelhante para a indústria
de microcrédito. Há muita coisa escondida, camuflada nas propagandas dessas instituições. Para perceber as roubadas, os pobres precisam se ater a detalhes o que não acontece. É preciso que as regras do jogo fiquem claras. E é aí que vai entrar a MF Transparency.
Qual é o futuro da indústria de microcrédito?
O que sabemos é que 140 milhões de pessoas foram beneficiadas por ela até agora. Mas outros milhões de pobres estão esperando. Em muitos países, nem mesmo 5% das famílias pobres tiveram acesso a pequenos empréstimos. Em Bangladesh, esse percentual é de 80%. A indústria precisa crescer.
O crescimento médio anual da carteira de microcrédito no mundo foi de cerca de 30% entre 2001 e 2006. O senhor não está satisfeito com esse ritmo?
Não. Estou frustrado. Esse mercado deveria estar crescendo muito mais rápido. O problema não está com as pessoas envolvidas, mas com o arcabouço legal que é basicamente inexistente. Você tem leis para incentivar a criação de grandes bancos, mas não os de microcrédito. Em Bangladesh, há uma lei específica e, por isso, o Grameen pode receber depósitos de pobres e usá-los para conceder pequenos empréstimos. No Brasil, assim como na maioria dos outros países, as instituições exclusivamente de microcrédito não podem nem mesmo receber depósitos dos próprios clientes. Isso limita seu crescimento, porque elas serão sempre dependentes de outro banco. Ou seja, embora movimentem muito dinheiro, não podem usá-lo como querem. Esse é o problema crítico.
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Com quase 7,5 milhões de clientes e mais de 7 bilhões de dólares em empréstimos distribuídos ao longo de 30 anos, a instituição provou-se também um negócio rentável, com lucro de quase 22 milhões de dólares nos últimos dois anos. Graças a essa fórmula, em 2006 o banqueiro dos pobres (como ele ficou conhecido) ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Recentemente, Yunus passou a se dedicar a duas missões. Uma delas é disseminar o conceito de social business, que ele mesmo criou para definir iniciativas empresariais cujo principal objetivo não é obter lucros altos, mas atender às demandas da população excluída do mercado de consumo.
A outra é brigar publicamente com as instituições financeiras que, segundo ele, estão distorcendo o conceito de microcrédito. Seu alvo de ataque preferencial é o Compartamos, banco mexicano que nasceu como uma ONG e se transformou num dos mais rentáveis do país ao oferecer crédito a con sumidores de baixa renda com juros de 76% ao ano. A seguir, trechos de uma entrevista concedida por Yunus com exclusividade:
Por que o desempenho do banco mexicano Compartamos o incomoda tanto?
Esse banco está lucrando muito ao conceder empréstimos com juros extremamente altos. Por isso, não acho que ele deva ser considerado uma instituição financeira de microcrédito. Essa é uma importante distinção que precisa ser feita. Microcrédito significa ajudar as pessoas a superar a pobreza. Não pode ser entendido como uma oportunidade para fazer rios de dinheiro tirando vantagem dos pobres. Aqueles que se aproveitam dos pobres para lucrar devem ser chamados de agiotas. Criei um modelo de negócios para que os pobres deixassem de ser reféns desses abusos e não vou permitir que instituições que distorcem meu conceito usem o termo microcrédito.
Para especialistas, o crescimento e a abertura de capital do Compartamos são sinais positivos de que o microcrédito finalmente deixará de ser um nicho dentro do mercado financeiro para se transformar num setor de peso. Essa expansão não é positiva?
De forma alguma me oponho à idéia de as instituições de microcrédito ganharem tamanho. O Grameen tem 7,5 milhões de clientes atualmente e pode chegar a 100 milhões. Só quero que elas continuem fazendo a coisa certa. Independentemente do tamanho, essas instituições devem seguir a premissa básica que me inspirou a criar o banco, que é não explorar os pobres.
O senhor endossou recentemente a criação da MicroFinance Transparency (Transparência em microfi nanças), uma ONG que tem o objetivo de monitorar o comportamento das instituições de microcrédito no mundo todo. Por que isso é importante?
Há muitos competidores no mercado de microcrédito hoje e vários deles estão se apropriando espertamente do termo para crescer. Há muita gente propagandeando taxas de juro muito baixas quando, na verdade, elas são altíssimas. Ou seja, escondem suas verdadeiras intenções e o preço real do que cobram dos clientes.
E de que maneira a MF Transparency vai combater isso?
Há uma lei nos Estados Unidos, a Truth in Lending (algo como Verdade ao emprestar). Graças a ela, todas as informações relacionadas a empréstimos são apresentadas de maneira padronizada e clara. Assim, as pessoas sabem exatamente os valores que estão sendo cobrados na operação e podem comparar as ofertas. Já está na hora de termos algo semelhante para a indústria
de microcrédito. Há muita coisa escondida, camuflada nas propagandas dessas instituições. Para perceber as roubadas, os pobres precisam se ater a detalhes o que não acontece. É preciso que as regras do jogo fiquem claras. E é aí que vai entrar a MF Transparency.
Qual é o futuro da indústria de microcrédito?
O que sabemos é que 140 milhões de pessoas foram beneficiadas por ela até agora. Mas outros milhões de pobres estão esperando. Em muitos países, nem mesmo 5% das famílias pobres tiveram acesso a pequenos empréstimos. Em Bangladesh, esse percentual é de 80%. A indústria precisa crescer.
O crescimento médio anual da carteira de microcrédito no mundo foi de cerca de 30% entre 2001 e 2006. O senhor não está satisfeito com esse ritmo?
Não. Estou frustrado. Esse mercado deveria estar crescendo muito mais rápido. O problema não está com as pessoas envolvidas, mas com o arcabouço legal que é basicamente inexistente. Você tem leis para incentivar a criação de grandes bancos, mas não os de microcrédito. Em Bangladesh, há uma lei específica e, por isso, o Grameen pode receber depósitos de pobres e usá-los para conceder pequenos empréstimos. No Brasil, assim como na maioria dos outros países, as instituições exclusivamente de microcrédito não podem nem mesmo receber depósitos dos próprios clientes. Isso limita seu crescimento, porque elas serão sempre dependentes de outro banco. Ou seja, embora movimentem muito dinheiro, não podem usá-lo como querem. Esse é o problema crítico.
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