Real
Um discurso que afeta o caixa
Ao levar em conta a política socioambiental de seus clientes na concessão de empréstimos, o Real mostra que as práticas sustentáveis estão incorporadas, de fato, à sua estratégia de negócios
Por Luci Gomes
Guia Exame de Sustentabilidade 2008
Em outubro do ano passado, quando a compra do banco Real pelo Santander foi anunciada, logo surgiram dúvidas sobre a continuidade dos programas de sustentabilidade desenvolvidos pela instituição adquirida pelos espanhóis. Afinal, o Santander, conhecido como um banco comercialmente agressivo, tem uma cultura que alguns analistas consideram incompatível com a do Real, pioneiro em práticas de sustentabilidade entre instituições financeiras no Brasil. Porém, a escolha do executivo paulista Fábio Barbosa, que desde 1998 ocupava a presidência do Real, para comandar a integração entre os dois bancos mudou essa avaliação. A decisão foi entendida como um sinal de que o Santander reconhece na imagem do Real algo a ser preservado — foi a primeira vez na história do Santander que o presidente do banco comprado foi mantido no cargo. “Não estamos perdendo nada com essa integração. Estamos somando”, diz Barbosa, que assumiu oficialmente o comando do grupo Santander no Brasil há três meses. “O tema sustentabilidade já começa a avançar e encontra bastante receptividade por parte do Santander. Estou animado com as possibilidades.”
Para Barbosa, quanto mais pessoas compreenderem a importância e a viabilidade das práticas sustentáveis, mais atrativo será o negócio do banco. “Isso exige um trabalho diário, que fazemos por meio do relacionamento com nossos clientes, na oferta de produtos e serviços, e por meio de ações de comunicação, entre outras iniciativas”, diz o executivo. Com o objetivo de difundir essa cultura, a instituição criou, em dezembro de 2007, o Espaço Real de Práticas em Sustentabilidade, um portal na internet onde clientes e fornecedores podem compartilhar suas práticas. “O objetivo é ajudar a encurtar a jornada de outras empresas rumo à sustentabilidade”, afirma Barbosa.
Um exemplo de como essa cultura está arraigada no jeito de fazer negócios do Real é o desenvolvimento de um método de rating ambiental dos clientes, que levará, pelo menos, mais um ano para ser concluído. A idéia é que cada empresa que pedir um empréstimo seja avaliada pelos riscos que oferece em questões ambientais. “Empresas com problemas socioambientais tendem a ter também problemas econômico-financeiros”, diz Christopher Wells, superintendente de risco socioambiental do Real. A intenção do banco é que o rating ambiental se some a outros componentes para analisar se uma empresa merece crédito — e em que condições. Segundo Wells, estão sendo desenvolvidos um rating genérico para as empresas e um específico para os setores de ferro-gusa e papel e celulose. “O Real é uma das poucas empresas que tentam incluir sustentabilidade como estratégia, e não como fato isolado”, diz Amadeu Rodrigues, diretor da Sustentax, que presta consultoria na implantação de empreendimentos sustentáveis.
Desde 2002, a avaliação de crédito dos clientes do Real já leva em conta um parecer a respeito das práticas socioambientais. Desde então, 49 clientes tiveram o crédito recusado, incluindo 22 madeireiras que apresentavam problemas com licenças ambientais e oito que eram acusadas de utilizar trabalho escravo. “Certamente, ganhamos muito mais clientes do que os que perdemos”, afirma Wells. “Para uma madeireira que tem certificação ambiental, por exemplo, é vantajoso trabalhar com um banco que faz diferenciação de verdade entre as empresas sustentáveis e as demais, garantindo uma linha de crédito a custos mais baixos para quem faz uma boa gestão ambiental.”
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
"O Real seguiu à risca a cartilha para implantar uma gestão sustentável. Falta agora ganhar escala, expandindo as políticas socioambientais para outros tipos de crédito e produtos de investimento. Também poderia pressionar as empresas clientes para que elas monitorem e reduzam suas emissões de carbono"
Gustavo Pimentel, especialista em finanças sustentáveis
Em outubro do ano passado, quando a compra do banco Real pelo Santander foi anunciada, logo surgiram dúvidas sobre a continuidade dos programas de sustentabilidade desenvolvidos pela instituição adquirida pelos espanhóis. Afinal, o Santander, conhecido como um banco comercialmente agressivo, tem uma cultura que alguns analistas consideram incompatível com a do Real, pioneiro em práticas de sustentabilidade entre instituições financeiras no Brasil. Porém, a escolha do executivo paulista Fábio Barbosa, que desde 1998 ocupava a presidência do Real, para comandar a integração entre os dois bancos mudou essa avaliação. A decisão foi entendida como um sinal de que o Santander reconhece na imagem do Real algo a ser preservado — foi a primeira vez na história do Santander que o presidente do banco comprado foi mantido no cargo. “Não estamos perdendo nada com essa integração. Estamos somando”, diz Barbosa, que assumiu oficialmente o comando do grupo Santander no Brasil há três meses. “O tema sustentabilidade já começa a avançar e encontra bastante receptividade por parte do Santander. Estou animado com as possibilidades.”
Para Barbosa, quanto mais pessoas compreenderem a importância e a viabilidade das práticas sustentáveis, mais atrativo será o negócio do banco. “Isso exige um trabalho diário, que fazemos por meio do relacionamento com nossos clientes, na oferta de produtos e serviços, e por meio de ações de comunicação, entre outras iniciativas”, diz o executivo. Com o objetivo de difundir essa cultura, a instituição criou, em dezembro de 2007, o Espaço Real de Práticas em Sustentabilidade, um portal na internet onde clientes e fornecedores podem compartilhar suas práticas. “O objetivo é ajudar a encurtar a jornada de outras empresas rumo à sustentabilidade”, afirma Barbosa.
Um exemplo de como essa cultura está arraigada no jeito de fazer negócios do Real é o desenvolvimento de um método de rating ambiental dos clientes, que levará, pelo menos, mais um ano para ser concluído. A idéia é que cada empresa que pedir um empréstimo seja avaliada pelos riscos que oferece em questões ambientais. “Empresas com problemas socioambientais tendem a ter também problemas econômico-financeiros”, diz Christopher Wells, superintendente de risco socioambiental do Real. A intenção do banco é que o rating ambiental se some a outros componentes para analisar se uma empresa merece crédito — e em que condições. Segundo Wells, estão sendo desenvolvidos um rating genérico para as empresas e um específico para os setores de ferro-gusa e papel e celulose. “O Real é uma das poucas empresas que tentam incluir sustentabilidade como estratégia, e não como fato isolado”, diz Amadeu Rodrigues, diretor da Sustentax, que presta consultoria na implantação de empreendimentos sustentáveis.
Desde 2002, a avaliação de crédito dos clientes do Real já leva em conta um parecer a respeito das práticas socioambientais. Desde então, 49 clientes tiveram o crédito recusado, incluindo 22 madeireiras que apresentavam problemas com licenças ambientais e oito que eram acusadas de utilizar trabalho escravo. “Certamente, ganhamos muito mais clientes do que os que perdemos”, afirma Wells. “Para uma madeireira que tem certificação ambiental, por exemplo, é vantajoso trabalhar com um banco que faz diferenciação de verdade entre as empresas sustentáveis e as demais, garantindo uma linha de crédito a custos mais baixos para quem faz uma boa gestão ambiental.”
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
"O Real seguiu à risca a cartilha para implantar uma gestão sustentável. Falta agora ganhar escala, expandindo as políticas socioambientais para outros tipos de crédito e produtos de investimento. Também poderia pressionar as empresas clientes para que elas monitorem e reduzam suas emissões de carbono"
Gustavo Pimentel, especialista em finanças sustentáveis