educar para crescer
Escolas plugadas
A informática faz parte do cotidiano das crianças e dos adolescentes e o governo promete torná-la universal nas escolas públicas até 2010. Conheça a experiência de quem aprendeu a usar o computador como aliado – e o alerta do que não funciona
Por Paulo de Camargo
Revista Claudia - 11/2008
Google, blogs, Orkut, wikis, hackers... Se alguém ainda tinha dúvidas, esqueça: o dicionário da educação (em casa e na escola) foi definitivamente invadido por novas palavras, criadas quase todos os dias para dar conta do turbilhão de avanços da tecnologia, que criam situações e possibilidades inteiramente novas.
O computador chegou para ficar – muito antes que alguém saiba com certeza se os recursos da informática trazem ou não benefícios concretos para a aprendizagem. Nas escolas particulares, a experiência já soma duas décadas, mas seu uso é cada vez mais diversificado. Na rede pública, as promessas são alentadoras: até 2010, o Ministério da Educação pretende levar computadores a todas as escolas públicas brasileiras, atingindo 55 milhões de alunos.
Nesse mundo novo, no qual se movem com familiaridade crianças e jovens, os adultos estão à procura de um manual de instruções. Os pais temem perder o controle sobre os movimentos dos filhos, que passam a encontrar os amigos em um espaço de relações virtuais. Os professores oscilam entre a negação do avanço e a busca por um novo papel, tentando entender o que é educar em um contexto no qual os alunos têm mais domínio sobre a ferramenta que eles próprios. “Estamos ainda na infância das possibilidades do uso da tecnologia na educação”, diz a professora Afira Ripper, da Faculdade de Educação da Unicamp, pioneira nas pesquisas nessa área.
Para ela, um dos vícios de origem do uso da tecnologia, que ainda persiste, é a premissa de que basta existir o computador e o aluno faz o resto. “Uma idéia na cabeça, um computador na mão”, lembra, parodiando a frase do cineasta Glauber Rocha. Como conseqüência desse pensamento, as escolas que mais cedo se lançaram no mundo virtual colecionaram experiências de fracasso. O impacto sobre o aprendizado foi muito menor do que se previu.
O primeiro erro foi capital: em quase 100% dos casos, o investimento em máquinas veio antes da qualificação dos professores. O que faz a diferença, descobriram a duras penas os educadores, não é a qualidade do software ou do hardware utilizado, mas aquela peça que fica logo à frente do monitor: o ser humano. Projetos bem-sucedidos de uso da tecnologia têm como característica comum professores que compreenderam o novo papel que desempenham como orientadores, motivadores, referências de um processo de descoberta coletiva. Nessa condição, nem é preciso que sobrepujem os alunos no domínio do computador. Basta que saibam o que querem que as crianças aprendam.
Os sucessivos percalços minaram a confiança nas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Não demorou para que sua eficácia começasse a ser questionada com dados. Apenas em 2008, duas pesquisas brasileiras ligaram a utilização do computador a defasagens na aprendizagem. Na Unicamp, o pesquisador Thomas Patrick Dwyer cruzou os dados obtidos pelos estudantes no Sistema de Avaliação do Ensino Básico com hábitos de uso do computador e chegou à conclusão de que passar muito tempo diante do micro é prejudicial.
O estudo apontou queda de até 7,5% nas notas dos alunos do atual 9o ano do ensino fundamental (antiga 8a série) e do 3o ano do ensino médio que recorrem à informática para fazer trabalhos escolares ou a lição de casa. Outro levantamento foi feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o respeitado Inep, vinculado ao Ministério da Educação. A pesquisa sugere que escolas que usam o computador sem conexão à internet têm notas mais baixas nas avaliações oficiais. O desempenho melhora se os micros estão plugados na rede, mas a semente da dúvida foi lançada.
Irritação. É essa a reação dos defensores do uso da tecnologia na escola diante de estudos como esses. “Há alguma convicção científica de que o lápis, comparado com a pedra lascada, propicie maior aprendizagem?”, ironiza o especialista em tecnologias educacionais Paulo Blikstein, doutorando pela Northwestern University, em Chicago. Para ele, o principal argumento para o uso intensivo das novas tecnologias na educação é que elas já fazem parte do cotidiano de todos. “É complicado julgar o computador como um comprimido que irá resolver todos os nossos problemas educacionais.
Certamente, a questão tem mais a ver com a qualidade da atividade desenvolvida”, acrescenta o pesquisador Leo Burd, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Para Afira Ripper, as pesquisas que detonam o uso do computador não entram no mérito de como ele tem sido utilizado. E é justamente a esse como que os pais devem ficar atentos antes de comprar a idéia de que a informática e a qualidade do ensino estão automaticamente associadas.
Nas escolas, o uso da tecnologia difundiu-se por três vertentes: a primeira foi a utilização de softwares educativos específicos, como ferramentas de ensino de matemática, português, ciências, em situações específicas; o uso da web como ferramenta de pesquisa e acesso a bancos de informações, bem como de comunicação; e o emprego de softwares de simulação, que reproduzem fenômenos difíceis de realizar na vida real – uma colisão de grandes massas, por exemplo.
Embora exista uma relativa variedade de softwares no mercado, seu desenvolvimento é caro e nem sempre se integram ao objetivo pedagógico das escolas. Isso contribui para que a web venha sendo, nos últimos anos, a alternativa mais popular. “Claro, pesquisar no Google é útil, mas é uma atividade passiva e qualquer professor sabe que não faz uma criança escrever melhor. O importante é aprender a articular informações e construir conhecimento”, diz Paulo Blikstein.
Em etapas diferentes. É como estão as escolas quando se trata do relacionamento com o micro, segundo o pesquisador César Augusto Amaral Nunes, ligado ao Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Em algumas, o computador apenas substituiu a máquina de escrever. Outras, porém, trilham caminhos mais promissores. Na Escola Móbile, em São Paulo, os alunos do ensino médio constroem animações sofisticadas que expressam problemas e conceitos científicos, como as leis da aceleração.
O Colégio Magno, também de São Paulo, utiliza a robótica para ensinar conceitos de física. Mas, segundo César Nunes, um dos maiores ganhos da tecnologia atualmente é permitir aos alunos trabalhar em ambientes colaborativos, ou seja, com produção, interação e troca de informações online. Estudantes do 2o e 3o anos do ensino fundamental do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, freqüentam um ambiente aberto a usuários de mais de 50 países; juntos, produzem textos, trocam descobertas, debatem e aprendem.
Porta de acesso a um mundo de novos conhecimentos, o computador também pode abrigar montanhas de lixo cibernético, informações sem veracidade e conteúdos perigosos. Sem falar na tentação de hábitos estéreis, como copiar textos encontrados na rede para apresentar como pesquisas escolares. Para combater esses malefícios, algumas escolas combinam o uso das ferramentas da web com aulas de técnicas de pesquisa e lições de ética e direito autoral.
Na Stance Dual, escola bilíngüe em São Paulo, a coordenadora Helena Mendonça procura ensinar os alunos a pesquisar segundo critérios preestabelecidos. “Eles têm que saber avaliar se a informação que encontraram na rede é confiável”, diz. A metodologia empregada parte de perguntas que o aluno deve fazer antes de utilizar as informações que encontrou, tais como a origem, o autor e o local, entre outros dados que garantem fidedignidade.
Outra questão importante é o acesso a sites de conteúdos restritos, como os de sexo e violência. O caminho mais freqüente adotado por pais e professores é o bloqueio puro e simples, mas, para o especialista em tecnologia educacional Carlos Seabra, de São Paulo, deve haver uma conscientização para que as crianças e os jovens aprendam o uso responsável e seguro da internet. Na escola ou em casa, é fundamental haver acompanhamento e diálogo sem cair na mera proibição – até porque ela é facilmente contornável”, diz.
Nem tudo mudou, apesar da força das novas tecnologias de informação. Para o pesquisador César Nunes, os educadores devem sempre lembrar que os objetivos fundamentais da educação permanecem: fazer com que crianças e adolescentes aprendam e se desenvolvam. Aí, temperada com bom senso, a informática passa a ser um instrumento a mais para potencializar as capacidades inerentes a cada um de nós.
Google, blogs, Orkut, wikis, hackers... Se alguém ainda tinha dúvidas, esqueça: o dicionário da educação (em casa e na escola) foi definitivamente invadido por novas palavras, criadas quase todos os dias para dar conta do turbilhão de avanços da tecnologia, que criam situações e possibilidades inteiramente novas.
O computador chegou para ficar – muito antes que alguém saiba com certeza se os recursos da informática trazem ou não benefícios concretos para a aprendizagem. Nas escolas particulares, a experiência já soma duas décadas, mas seu uso é cada vez mais diversificado. Na rede pública, as promessas são alentadoras: até 2010, o Ministério da Educação pretende levar computadores a todas as escolas públicas brasileiras, atingindo 55 milhões de alunos.
Nesse mundo novo, no qual se movem com familiaridade crianças e jovens, os adultos estão à procura de um manual de instruções. Os pais temem perder o controle sobre os movimentos dos filhos, que passam a encontrar os amigos em um espaço de relações virtuais. Os professores oscilam entre a negação do avanço e a busca por um novo papel, tentando entender o que é educar em um contexto no qual os alunos têm mais domínio sobre a ferramenta que eles próprios. “Estamos ainda na infância das possibilidades do uso da tecnologia na educação”, diz a professora Afira Ripper, da Faculdade de Educação da Unicamp, pioneira nas pesquisas nessa área.
Para ela, um dos vícios de origem do uso da tecnologia, que ainda persiste, é a premissa de que basta existir o computador e o aluno faz o resto. “Uma idéia na cabeça, um computador na mão”, lembra, parodiando a frase do cineasta Glauber Rocha. Como conseqüência desse pensamento, as escolas que mais cedo se lançaram no mundo virtual colecionaram experiências de fracasso. O impacto sobre o aprendizado foi muito menor do que se previu.
O primeiro erro foi capital: em quase 100% dos casos, o investimento em máquinas veio antes da qualificação dos professores. O que faz a diferença, descobriram a duras penas os educadores, não é a qualidade do software ou do hardware utilizado, mas aquela peça que fica logo à frente do monitor: o ser humano. Projetos bem-sucedidos de uso da tecnologia têm como característica comum professores que compreenderam o novo papel que desempenham como orientadores, motivadores, referências de um processo de descoberta coletiva. Nessa condição, nem é preciso que sobrepujem os alunos no domínio do computador. Basta que saibam o que querem que as crianças aprendam.
Os sucessivos percalços minaram a confiança nas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Não demorou para que sua eficácia começasse a ser questionada com dados. Apenas em 2008, duas pesquisas brasileiras ligaram a utilização do computador a defasagens na aprendizagem. Na Unicamp, o pesquisador Thomas Patrick Dwyer cruzou os dados obtidos pelos estudantes no Sistema de Avaliação do Ensino Básico com hábitos de uso do computador e chegou à conclusão de que passar muito tempo diante do micro é prejudicial.
O estudo apontou queda de até 7,5% nas notas dos alunos do atual 9o ano do ensino fundamental (antiga 8a série) e do 3o ano do ensino médio que recorrem à informática para fazer trabalhos escolares ou a lição de casa. Outro levantamento foi feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o respeitado Inep, vinculado ao Ministério da Educação. A pesquisa sugere que escolas que usam o computador sem conexão à internet têm notas mais baixas nas avaliações oficiais. O desempenho melhora se os micros estão plugados na rede, mas a semente da dúvida foi lançada.
Irritação. É essa a reação dos defensores do uso da tecnologia na escola diante de estudos como esses. “Há alguma convicção científica de que o lápis, comparado com a pedra lascada, propicie maior aprendizagem?”, ironiza o especialista em tecnologias educacionais Paulo Blikstein, doutorando pela Northwestern University, em Chicago. Para ele, o principal argumento para o uso intensivo das novas tecnologias na educação é que elas já fazem parte do cotidiano de todos. “É complicado julgar o computador como um comprimido que irá resolver todos os nossos problemas educacionais.
Certamente, a questão tem mais a ver com a qualidade da atividade desenvolvida”, acrescenta o pesquisador Leo Burd, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Para Afira Ripper, as pesquisas que detonam o uso do computador não entram no mérito de como ele tem sido utilizado. E é justamente a esse como que os pais devem ficar atentos antes de comprar a idéia de que a informática e a qualidade do ensino estão automaticamente associadas.
Nas escolas, o uso da tecnologia difundiu-se por três vertentes: a primeira foi a utilização de softwares educativos específicos, como ferramentas de ensino de matemática, português, ciências, em situações específicas; o uso da web como ferramenta de pesquisa e acesso a bancos de informações, bem como de comunicação; e o emprego de softwares de simulação, que reproduzem fenômenos difíceis de realizar na vida real – uma colisão de grandes massas, por exemplo.
Embora exista uma relativa variedade de softwares no mercado, seu desenvolvimento é caro e nem sempre se integram ao objetivo pedagógico das escolas. Isso contribui para que a web venha sendo, nos últimos anos, a alternativa mais popular. “Claro, pesquisar no Google é útil, mas é uma atividade passiva e qualquer professor sabe que não faz uma criança escrever melhor. O importante é aprender a articular informações e construir conhecimento”, diz Paulo Blikstein.
Em etapas diferentes. É como estão as escolas quando se trata do relacionamento com o micro, segundo o pesquisador César Augusto Amaral Nunes, ligado ao Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Em algumas, o computador apenas substituiu a máquina de escrever. Outras, porém, trilham caminhos mais promissores. Na Escola Móbile, em São Paulo, os alunos do ensino médio constroem animações sofisticadas que expressam problemas e conceitos científicos, como as leis da aceleração.
O Colégio Magno, também de São Paulo, utiliza a robótica para ensinar conceitos de física. Mas, segundo César Nunes, um dos maiores ganhos da tecnologia atualmente é permitir aos alunos trabalhar em ambientes colaborativos, ou seja, com produção, interação e troca de informações online. Estudantes do 2o e 3o anos do ensino fundamental do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, freqüentam um ambiente aberto a usuários de mais de 50 países; juntos, produzem textos, trocam descobertas, debatem e aprendem.
Porta de acesso a um mundo de novos conhecimentos, o computador também pode abrigar montanhas de lixo cibernético, informações sem veracidade e conteúdos perigosos. Sem falar na tentação de hábitos estéreis, como copiar textos encontrados na rede para apresentar como pesquisas escolares. Para combater esses malefícios, algumas escolas combinam o uso das ferramentas da web com aulas de técnicas de pesquisa e lições de ética e direito autoral.
Na Stance Dual, escola bilíngüe em São Paulo, a coordenadora Helena Mendonça procura ensinar os alunos a pesquisar segundo critérios preestabelecidos. “Eles têm que saber avaliar se a informação que encontraram na rede é confiável”, diz. A metodologia empregada parte de perguntas que o aluno deve fazer antes de utilizar as informações que encontrou, tais como a origem, o autor e o local, entre outros dados que garantem fidedignidade.
Outra questão importante é o acesso a sites de conteúdos restritos, como os de sexo e violência. O caminho mais freqüente adotado por pais e professores é o bloqueio puro e simples, mas, para o especialista em tecnologia educacional Carlos Seabra, de São Paulo, deve haver uma conscientização para que as crianças e os jovens aprendam o uso responsável e seguro da internet. Na escola ou em casa, é fundamental haver acompanhamento e diálogo sem cair na mera proibição – até porque ela é facilmente contornável”, diz.
Nem tudo mudou, apesar da força das novas tecnologias de informação. Para o pesquisador César Nunes, os educadores devem sempre lembrar que os objetivos fundamentais da educação permanecem: fazer com que crianças e adolescentes aprendam e se desenvolvam. Aí, temperada com bom senso, a informática passa a ser um instrumento a mais para potencializar as capacidades inerentes a cada um de nós.