pólen
Polarização literária
A professora Lucia Conde ensina professores a ter paixão pelos livros e a disseminar isso entre seus alunos
Roberta de Lucca
Revista Vida Simples - 12/2008
A educadora Lucia Conde faz um trabalho de abelha. De flor em flor, ou melhor, de professor em professor, ela dissemina o interesse pela literatura. Há 14 anos, Lucia mostra aos professores o quanto é importante gostarem de ler livros não só para sua formação e lazer, mas para despertar nos alunos o apreço pela escrita literária.
Segundo Lucia, pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores aponta que 60% dos professores brasileiros não lêem. Diante desse dado alarmante, questiona ela, como se espera que o aluno goste de ler? “Não é possível que alguém que não tenha o hábito da leitura estimule seu aluno a ter”, diz. Baseada nesse pensamento, ela desenvolveu os projetos Aprender a Ler é Possível e Brasil que Lê. Patrocinada pelo Instituto Azzi, uma organização assistencial, Lucia dá aula para professores de ONGs que atendem crianças e adolescentes fora do horário escolar.
A educadora criou ainda uma metodologia de alfabetização por meio de obras literárias. Para Lucia, só o contato com a literatura pode envolver o aluno com a leitura porque ela fala à alma, à inteligência e à imaginação. Lucia mostra como o hábito de ler é importante para a formação do ser humano e sua relação com o mundo e a sociedade.
O que a motivou a formatar esse sistema de ensino? E por que fazer isso por meio da literatura?
Há 14 anos, iniciei um trabalho social na ONG Lar Meimei, na Vila Missionária. Naquela época, mais de 40% das crianças que freqüentavam a ONG eram analfabetas. Então, comecei a ensinar os educadores da Meimei a ensinar as crianças, que já estavam na escola, a ler. Mais tarde, em 2005, pesquisa realizada pela ONG apontou que havia apenas 6% de analfabetos na organização. Aprendi a técnica nos Estados Unidos. Em 1980, eles tinham o mesmo problema que o Brasil. As crianças não liam livros, não gostavam de ler e tinham muita dificuldade de compreensão do texto por meio do livro didático, que é chato. O livro didático de português pega um pedaço de uma obra da literatura e faz perguntas de interpretação do texto. Só que esse texto está fora do seu contexto original, foi retirado de uma obra, e só faz sentido dentro dela. Além disso, o aluno não pode escolher o que quer ler. É obrigado a ler o que o professor manda, e assim não se forma uma identidade leitora.
E como mostrar ao estudante a diversidade de livros e que ele pode se identificar com determinado autor ou estilo?
Apenas 26% das escolas públicas no Brasil têm biblioteca. O governo gasta milhões em livros didáticos e, quando cria uma biblioteca, não tem bibliotecário. Então, esses locais ficam fechados porque os alunos podem estragar os livros. É um absurdo. As crianças têm de ir para a biblioteca escolher os livros, ouvir histórias, contar sobre o que estão lendo para os colegas. Assim vai-se formando o leitor. O livro emociona, fala à alma, à inteligência e à imaginação, e isso é muito importante. Você só se envolve com algo que te emociona. Responder perguntinha de compreensão de texto não emociona ninguém.
Como despertar no professor, que já é adulto, a mudança de padrão e o gosto pela leitura?
É difícil, mas os indicadores dos meus cursos mostram que eles se conscientizam da importância da leitura. Escolhem os livros que querem ler e fazem um Diário de Leitura, que não é um resumo do livro. Questionamos o que o livro diz, o que cada professor pensou a respeito do tema, se a pessoa se identificou com a história ou não. Na primeira aula, eu pergunto quantos livros os professores leram nos últimos 12 meses, de que autores gostam, que estilo preferem, se eles se julgam bons leitores. E as respostas mostram a quantidade de pessoas com dificuldade de compreender uma leitura. Muitos não entendem o significado do texto e isso vem da nossa cultura, que não tem o costume de ler. Por isso, a necessidade de termos mais bibliotecas e os mediadores de leitura, que são aquelas pessoas que nos incentivam
a ler.
Seu curso forma o mediador de leitura, que é o professor. Como ensiná-lo a gostar de ler para depois passar esse interesse aos alunos?
Primeiro, preciso trabalhar a leitura do professor, ensinando-o a ler. Um ponto problemático é que o indivíduo lê oralizando, falando o texto em voz baixa. Isso atrapalha muito a compreensão e lentifi ca a leitura, que tem de ser feita com os olhos para ser integrada rapidamente pelo cérebro. Quando lê, a pessoa visualiza e já constrói o cenário na mente. A criança, quando está aprendendo a ler, oraliza até o fi m do primeiro ano da escola. Depois disso, já introjetou a leitura. Peço que os professores comecem a ler com os olhos, devagar. É uma reaprendizagem de centros nervosos cerebrais. Também ensino os professores a fazer um projeto de leitura com seus alunos, que terão de pesquisar, ler e escrever um texto, que é o resultado da sua interpretação de uma questão.
Na sua concepção, a literatura é um instrumento de alfabetização. Como alfabetizar uma criança com literatura?
Eu conto a história de um livro literário para crianças e escrevo um pedaço dela na lousa. Mostro as letras e depois as palavras e assim acontece a alfabetização. Vamos brincando e as crianças vão aprendendo através das histórias dos livros. Eu ensino os professores como fazer isso. Na ONG Naia, primeiro lugar onde dei o curso, 30% das crianças e 63% dos adolescentes tinham analfabetismo funcional – que são aqueles que não entendem um texto. Conseguimos diminuir 25% do analfabetismo desses alunos. Agora estou no segundo curso, o Aprender a Ler é Possível, em que ensino o professor a diagnosticar em que ponto a criança ou o adolescente parou, o por quê e o que deve ser feito para tirá-lo dessa linha de analfabetismo para evoluir. O ideal é que isso fosse acessível a mais professores e alunos. O gosto pela literatura deveria ser disseminado, É preciso tornar a literatura parte da vida das pessoas. Temos crianças que chegam na 4ª série sem saber ler nem escrever e adolescentes no ensino médio com formação de nível máximo de 8ª série. É alarmante o número de adolescentes analfabetos funcionais. Eles decodificam um texto, mas não entendem. Não conseguem escrever uma carta para reclamar de algo, não têm proficiência na escrita, estão excluídos do mundo da comunicação. Para escrever e falar bem, o indivíduo tem que ler. Quanto mais ler, mais vai entender, desenvolver vocabulário e se envolver como cidadão.
A educadora Lucia Conde faz um trabalho de abelha. De flor em flor, ou melhor, de professor em professor, ela dissemina o interesse pela literatura. Há 14 anos, Lucia mostra aos professores o quanto é importante gostarem de ler livros não só para sua formação e lazer, mas para despertar nos alunos o apreço pela escrita literária.
Segundo Lucia, pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores aponta que 60% dos professores brasileiros não lêem. Diante desse dado alarmante, questiona ela, como se espera que o aluno goste de ler? “Não é possível que alguém que não tenha o hábito da leitura estimule seu aluno a ter”, diz. Baseada nesse pensamento, ela desenvolveu os projetos Aprender a Ler é Possível e Brasil que Lê. Patrocinada pelo Instituto Azzi, uma organização assistencial, Lucia dá aula para professores de ONGs que atendem crianças e adolescentes fora do horário escolar.
A educadora criou ainda uma metodologia de alfabetização por meio de obras literárias. Para Lucia, só o contato com a literatura pode envolver o aluno com a leitura porque ela fala à alma, à inteligência e à imaginação. Lucia mostra como o hábito de ler é importante para a formação do ser humano e sua relação com o mundo e a sociedade.
O que a motivou a formatar esse sistema de ensino? E por que fazer isso por meio da literatura?
Há 14 anos, iniciei um trabalho social na ONG Lar Meimei, na Vila Missionária. Naquela época, mais de 40% das crianças que freqüentavam a ONG eram analfabetas. Então, comecei a ensinar os educadores da Meimei a ensinar as crianças, que já estavam na escola, a ler. Mais tarde, em 2005, pesquisa realizada pela ONG apontou que havia apenas 6% de analfabetos na organização. Aprendi a técnica nos Estados Unidos. Em 1980, eles tinham o mesmo problema que o Brasil. As crianças não liam livros, não gostavam de ler e tinham muita dificuldade de compreensão do texto por meio do livro didático, que é chato. O livro didático de português pega um pedaço de uma obra da literatura e faz perguntas de interpretação do texto. Só que esse texto está fora do seu contexto original, foi retirado de uma obra, e só faz sentido dentro dela. Além disso, o aluno não pode escolher o que quer ler. É obrigado a ler o que o professor manda, e assim não se forma uma identidade leitora.
E como mostrar ao estudante a diversidade de livros e que ele pode se identificar com determinado autor ou estilo?
Apenas 26% das escolas públicas no Brasil têm biblioteca. O governo gasta milhões em livros didáticos e, quando cria uma biblioteca, não tem bibliotecário. Então, esses locais ficam fechados porque os alunos podem estragar os livros. É um absurdo. As crianças têm de ir para a biblioteca escolher os livros, ouvir histórias, contar sobre o que estão lendo para os colegas. Assim vai-se formando o leitor. O livro emociona, fala à alma, à inteligência e à imaginação, e isso é muito importante. Você só se envolve com algo que te emociona. Responder perguntinha de compreensão de texto não emociona ninguém.
Como despertar no professor, que já é adulto, a mudança de padrão e o gosto pela leitura?
É difícil, mas os indicadores dos meus cursos mostram que eles se conscientizam da importância da leitura. Escolhem os livros que querem ler e fazem um Diário de Leitura, que não é um resumo do livro. Questionamos o que o livro diz, o que cada professor pensou a respeito do tema, se a pessoa se identificou com a história ou não. Na primeira aula, eu pergunto quantos livros os professores leram nos últimos 12 meses, de que autores gostam, que estilo preferem, se eles se julgam bons leitores. E as respostas mostram a quantidade de pessoas com dificuldade de compreender uma leitura. Muitos não entendem o significado do texto e isso vem da nossa cultura, que não tem o costume de ler. Por isso, a necessidade de termos mais bibliotecas e os mediadores de leitura, que são aquelas pessoas que nos incentivam
a ler.
Seu curso forma o mediador de leitura, que é o professor. Como ensiná-lo a gostar de ler para depois passar esse interesse aos alunos?
Primeiro, preciso trabalhar a leitura do professor, ensinando-o a ler. Um ponto problemático é que o indivíduo lê oralizando, falando o texto em voz baixa. Isso atrapalha muito a compreensão e lentifi ca a leitura, que tem de ser feita com os olhos para ser integrada rapidamente pelo cérebro. Quando lê, a pessoa visualiza e já constrói o cenário na mente. A criança, quando está aprendendo a ler, oraliza até o fi m do primeiro ano da escola. Depois disso, já introjetou a leitura. Peço que os professores comecem a ler com os olhos, devagar. É uma reaprendizagem de centros nervosos cerebrais. Também ensino os professores a fazer um projeto de leitura com seus alunos, que terão de pesquisar, ler e escrever um texto, que é o resultado da sua interpretação de uma questão.
Na sua concepção, a literatura é um instrumento de alfabetização. Como alfabetizar uma criança com literatura?
Eu conto a história de um livro literário para crianças e escrevo um pedaço dela na lousa. Mostro as letras e depois as palavras e assim acontece a alfabetização. Vamos brincando e as crianças vão aprendendo através das histórias dos livros. Eu ensino os professores como fazer isso. Na ONG Naia, primeiro lugar onde dei o curso, 30% das crianças e 63% dos adolescentes tinham analfabetismo funcional – que são aqueles que não entendem um texto. Conseguimos diminuir 25% do analfabetismo desses alunos. Agora estou no segundo curso, o Aprender a Ler é Possível, em que ensino o professor a diagnosticar em que ponto a criança ou o adolescente parou, o por quê e o que deve ser feito para tirá-lo dessa linha de analfabetismo para evoluir. O ideal é que isso fosse acessível a mais professores e alunos. O gosto pela literatura deveria ser disseminado, É preciso tornar a literatura parte da vida das pessoas. Temos crianças que chegam na 4ª série sem saber ler nem escrever e adolescentes no ensino médio com formação de nível máximo de 8ª série. É alarmante o número de adolescentes analfabetos funcionais. Eles decodificam um texto, mas não entendem. Não conseguem escrever uma carta para reclamar de algo, não têm proficiência na escrita, estão excluídos do mundo da comunicação. Para escrever e falar bem, o indivíduo tem que ler. Quanto mais ler, mais vai entender, desenvolver vocabulário e se envolver como cidadão.