Bônus
Professor também tem nota
Com apoio de empresas, escolas públicas melhoram o padrão de ensino. A inovação: fixar metas e premiar professores que conseguem fazer os alunos aprender mais
André Faust
Revista Exame – 16/04/2009
Nos idos de 2004, a Escola Estadual Luiz Travassos da Rosa, no Jardim Santo Antônio, era um colégio da zona sul de São Paulo como outro qualquer da periferia. Quase metade dos cerca de 70 alunos da 6a série era analfabeta funcional e o fornecimento de água do lugar era feito por caminhões-pipa. Em apenas quatro anos, cinco diretores haviam passado pela escola. Vista a distância, a Travassos - como é mais conhecida - era só mais uma entre tantas escolas públicas brasileiras com índices baixíssimos de qualidade de ensino, um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento do país. No final do ano passado, porém, o cenário havia melhorado substancialmente: os alunos de 1a a 8a série superaram, com folga, a meta para a disciplina de língua portuguesa lançada pelo Ministério da Educação - para 2021. Por trás da reviravolta nos índices de qualidade está um programa de parceria empresa-escola com ênfase no estímulo a professores. Entre outras conquistas, o programa conseguiu levar para dentro de uma escola pública princípios de meritocracia.
A transformação nos índices de desempenho da escola Travassos é ótima notícia para o ensino público brasileiro. O Brasil - felizmente - já superou o desafio de levar 97% das crianças para as salas de aula, mas está a anos-luz de conseguir algo tão importante quanto isso: fazer com que elas efetivamente aprendam. Em 2006, nas provas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) - exame que compara o desempenho de estudantes em 57 países -, o Brasil ficou em 53o lugar em matemática, 52o em ciências e 48o em leitura. Fomos também um dos países em que houve maior variação de desempenho entre escolas, uma evidência de que parte da solução para a educação brasileira já se encontra disponível em algum lugar entre as 205 704 escolas do país. É nesse contexto que bons exemplos ganham importância. "O Estado precisa prestar atenção em inovações desse tipo, para disseminar e generalizar essas conquistas", diz Ocimar Munhoz Alvarse, professor da faculdade de educação da Universidade de São Paulo.
O caminho da parceria
A história de inovação à qual Alvarse se refere começou em abril de 2004, quando o empresário Jair Ribeiro, presidente da CPM Braxis, maior companhia brasileira de serviços de tecnologia, firmou parceria com a escola Travassos para melhorar a precária infraestrutura da instituição. Num primeiro momento, as ações seguiram o passo-a-passo da cartilha básica de projetos sociais em educação: reformas e pinturas em salas de aula, corredores, banheiros e refeitório. A sala de leitura foi ampliada, e o laboratório de informática, equipado. O fim das obras, em julho de 2004, criou expectativa em torno de como a escola se sairia no sistema de avaliação da rede estadual naquele ano. Em fevereiro de 2005 vieram os resultados. Com eles, veio também o primeiro desapontamento - e a primeira lição. "O desempenho dos alunos não acompanhou o ritmo das obras", diz Lúcia Fávero, coordenadora da Parceiros da Educação, ONG criada da experiência da CPM Braxis com a Travassos. A tímida evolução do índice mostrou o óbvio: melhorias no espaço físico não garantem, por si só, avanços na qualidade de ensino.
Essa experiência acabou por mudar o foco do programa. A prioridade, a partir dali, seria o apoio pedagógico à escola. Institutos especializados em métodos educacionais foram contratados para cuidar da formação do corpo docente. Em paralelo ao apoio pedagógico, foi posto à prova, pela primeira vez, um mecanismo de recompensa por metas atingidas: se os alunos e professores apresentassem um bom rendimento escolar, a quadra poliesportiva da escola seria reformada. Desafio vencido, promessa cumprida. Da reforma da quadra ao sistema de premiação a professores por mérito, em 2007, foi um passo. "É claro que houve resistência de alguns poucos professores no início. Temiam que as premiações fossem criar distinções entre eles", diz Ribeiro. O temor quanto à aceitação do sistema de recompensas, no entanto, se desfez em pouco tempo. Dos 65 professores da escola, apenas dois se recusaram a concorrer às premiações.
A Secretaria Estadual de Educação não se opôs ao projeto. E os sindicatos - quase sempre contrários a qualquer iniciativa que misture público e privado e que reconheça o mérito - não se manifestaram. "Com as metas, nosso trabalho na sala de aula é mais focado", diz Elaine Aparecida Ribeiro, professora de língua portuguesa que recebeu o bônus máximo - 1 000 reais, o equivalente à metade de sua remuneração mensal - nas duas edições do programa. "Sabemos o quanto temos de avançar." Os prêmios, de início, foram distribuídos a professores das disciplinas de português e matemática cujas turmas atingiram as metas acordadas entre a escola e a empresa parceira. Turmas que melhorassem as notas em 25% garantiam o bônus máximo. Um avanço de 15% gerava bônus de 300 reais para os professores. Os resultados foram medidos por provas aplicadas e avaliadas, no início e no final do ano letivo, pela Fundação Cesgranrio, contratada pela Parceiros da Educação. Além disso, para compor a nota do professor, também é considerada sua assiduidade. Ele deve comparecer a pelo menos 95% das aulas. Em 2007, o programa distribuiu pela primeira vez bônus a 23 professores que cumpriram a meta. No ano passado, foram 17 os premiados, ou 26% do corpo docente da escola. Neste ano, o sistema de bonificação incluirá professores de todas as disciplinas.
Fazer a ponte entre escolas e empresas é hoje o principal trabalho da Parceiros da Educação. Replicar os resultados da primeira experiência é a meta que a ONG estabeleceu para colaborar com a melhoria da qualidade da educação brasileira. A ONG já levou 40 empresas e fundações a adotar 72 escolas públicas de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Rio Grande do Sul. A premiação por mérito, ponta mais avançada do plano de recuperação de escolas em crise, beneficia atualmente três escolas estaduais de São Paulo, rede que conta com cerca de 5 300 estabelecimentos. Até o final de 2009, o programa de bonificação deverá chegar a outras 20 escolas.
Melhora no boletim
A expansão de um programa como esse ganha relevância num momento em que governos começam a implantar iniciativas de bonificação por mérito no setor público brasileiro. Em Minas Gerais, servidores de órgãos do executivo concorrem a premiações por bom desempenho desde 2007. Distrito Federal e Rio Grande do Sul planejam colocar em ação programas semelhantes no próximo ano. No final de março, o governo de São Paulo pagou bônus de até 2,9 vezes o salário mensal a professores e servidores da rede estadual de ensino, pela primeira vez levando em conta o desempenho dos profissionais. Os critérios que o governo paulista adotou para o pagamento das bonificações vêm sofrendo críticas de sindicatos de professores do estado - a principal delas é que o plano não resolve o problema geral de salários baixos da categoria. No total, o governo paulista distribuiu 591 milhões de reais entre 195 000 funcionários da rede - ou 72% do total, um número tão alto que fica até difícil falar em meritocracia neste caso.
A polêmica em torno do pagamento de bônus ao setor público segundo princípios de mérito não é exclusividade do Brasil. Um dos pilares do plano de educação do presidente americano Barack Obama, a recompensa por excelência no ensino público, tem sido objeto de controvérsia também no debate político americano. No início de março, Obama anunciou a intenção de expandir um programa federal de bonificação por desempenho. Antes mesmo de chegar ao Congresso americano, a proposta tem sido questionada por sindicatos e associações de professores. Vencer resistências e tabus, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, é o maior obstáculo para a expansão desse tipo de iniciativa.
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Educar para crescer
Parceiros da Educação
CPM Braxis
Nos idos de 2004, a Escola Estadual Luiz Travassos da Rosa, no Jardim Santo Antônio, era um colégio da zona sul de São Paulo como outro qualquer da periferia. Quase metade dos cerca de 70 alunos da 6a série era analfabeta funcional e o fornecimento de água do lugar era feito por caminhões-pipa. Em apenas quatro anos, cinco diretores haviam passado pela escola. Vista a distância, a Travassos - como é mais conhecida - era só mais uma entre tantas escolas públicas brasileiras com índices baixíssimos de qualidade de ensino, um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento do país. No final do ano passado, porém, o cenário havia melhorado substancialmente: os alunos de 1a a 8a série superaram, com folga, a meta para a disciplina de língua portuguesa lançada pelo Ministério da Educação - para 2021. Por trás da reviravolta nos índices de qualidade está um programa de parceria empresa-escola com ênfase no estímulo a professores. Entre outras conquistas, o programa conseguiu levar para dentro de uma escola pública princípios de meritocracia.
A transformação nos índices de desempenho da escola Travassos é ótima notícia para o ensino público brasileiro. O Brasil - felizmente - já superou o desafio de levar 97% das crianças para as salas de aula, mas está a anos-luz de conseguir algo tão importante quanto isso: fazer com que elas efetivamente aprendam. Em 2006, nas provas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) - exame que compara o desempenho de estudantes em 57 países -, o Brasil ficou em 53o lugar em matemática, 52o em ciências e 48o em leitura. Fomos também um dos países em que houve maior variação de desempenho entre escolas, uma evidência de que parte da solução para a educação brasileira já se encontra disponível em algum lugar entre as 205 704 escolas do país. É nesse contexto que bons exemplos ganham importância. "O Estado precisa prestar atenção em inovações desse tipo, para disseminar e generalizar essas conquistas", diz Ocimar Munhoz Alvarse, professor da faculdade de educação da Universidade de São Paulo.
O caminho da parceria
A história de inovação à qual Alvarse se refere começou em abril de 2004, quando o empresário Jair Ribeiro, presidente da CPM Braxis, maior companhia brasileira de serviços de tecnologia, firmou parceria com a escola Travassos para melhorar a precária infraestrutura da instituição. Num primeiro momento, as ações seguiram o passo-a-passo da cartilha básica de projetos sociais em educação: reformas e pinturas em salas de aula, corredores, banheiros e refeitório. A sala de leitura foi ampliada, e o laboratório de informática, equipado. O fim das obras, em julho de 2004, criou expectativa em torno de como a escola se sairia no sistema de avaliação da rede estadual naquele ano. Em fevereiro de 2005 vieram os resultados. Com eles, veio também o primeiro desapontamento - e a primeira lição. "O desempenho dos alunos não acompanhou o ritmo das obras", diz Lúcia Fávero, coordenadora da Parceiros da Educação, ONG criada da experiência da CPM Braxis com a Travassos. A tímida evolução do índice mostrou o óbvio: melhorias no espaço físico não garantem, por si só, avanços na qualidade de ensino.
Essa experiência acabou por mudar o foco do programa. A prioridade, a partir dali, seria o apoio pedagógico à escola. Institutos especializados em métodos educacionais foram contratados para cuidar da formação do corpo docente. Em paralelo ao apoio pedagógico, foi posto à prova, pela primeira vez, um mecanismo de recompensa por metas atingidas: se os alunos e professores apresentassem um bom rendimento escolar, a quadra poliesportiva da escola seria reformada. Desafio vencido, promessa cumprida. Da reforma da quadra ao sistema de premiação a professores por mérito, em 2007, foi um passo. "É claro que houve resistência de alguns poucos professores no início. Temiam que as premiações fossem criar distinções entre eles", diz Ribeiro. O temor quanto à aceitação do sistema de recompensas, no entanto, se desfez em pouco tempo. Dos 65 professores da escola, apenas dois se recusaram a concorrer às premiações.
A Secretaria Estadual de Educação não se opôs ao projeto. E os sindicatos - quase sempre contrários a qualquer iniciativa que misture público e privado e que reconheça o mérito - não se manifestaram. "Com as metas, nosso trabalho na sala de aula é mais focado", diz Elaine Aparecida Ribeiro, professora de língua portuguesa que recebeu o bônus máximo - 1 000 reais, o equivalente à metade de sua remuneração mensal - nas duas edições do programa. "Sabemos o quanto temos de avançar." Os prêmios, de início, foram distribuídos a professores das disciplinas de português e matemática cujas turmas atingiram as metas acordadas entre a escola e a empresa parceira. Turmas que melhorassem as notas em 25% garantiam o bônus máximo. Um avanço de 15% gerava bônus de 300 reais para os professores. Os resultados foram medidos por provas aplicadas e avaliadas, no início e no final do ano letivo, pela Fundação Cesgranrio, contratada pela Parceiros da Educação. Além disso, para compor a nota do professor, também é considerada sua assiduidade. Ele deve comparecer a pelo menos 95% das aulas. Em 2007, o programa distribuiu pela primeira vez bônus a 23 professores que cumpriram a meta. No ano passado, foram 17 os premiados, ou 26% do corpo docente da escola. Neste ano, o sistema de bonificação incluirá professores de todas as disciplinas.
Fazer a ponte entre escolas e empresas é hoje o principal trabalho da Parceiros da Educação. Replicar os resultados da primeira experiência é a meta que a ONG estabeleceu para colaborar com a melhoria da qualidade da educação brasileira. A ONG já levou 40 empresas e fundações a adotar 72 escolas públicas de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Rio Grande do Sul. A premiação por mérito, ponta mais avançada do plano de recuperação de escolas em crise, beneficia atualmente três escolas estaduais de São Paulo, rede que conta com cerca de 5 300 estabelecimentos. Até o final de 2009, o programa de bonificação deverá chegar a outras 20 escolas.
Melhora no boletim
A expansão de um programa como esse ganha relevância num momento em que governos começam a implantar iniciativas de bonificação por mérito no setor público brasileiro. Em Minas Gerais, servidores de órgãos do executivo concorrem a premiações por bom desempenho desde 2007. Distrito Federal e Rio Grande do Sul planejam colocar em ação programas semelhantes no próximo ano. No final de março, o governo de São Paulo pagou bônus de até 2,9 vezes o salário mensal a professores e servidores da rede estadual de ensino, pela primeira vez levando em conta o desempenho dos profissionais. Os critérios que o governo paulista adotou para o pagamento das bonificações vêm sofrendo críticas de sindicatos de professores do estado - a principal delas é que o plano não resolve o problema geral de salários baixos da categoria. No total, o governo paulista distribuiu 591 milhões de reais entre 195 000 funcionários da rede - ou 72% do total, um número tão alto que fica até difícil falar em meritocracia neste caso.
A polêmica em torno do pagamento de bônus ao setor público segundo princípios de mérito não é exclusividade do Brasil. Um dos pilares do plano de educação do presidente americano Barack Obama, a recompensa por excelência no ensino público, tem sido objeto de controvérsia também no debate político americano. No início de março, Obama anunciou a intenção de expandir um programa federal de bonificação por desempenho. Antes mesmo de chegar ao Congresso americano, a proposta tem sido questionada por sindicatos e associações de professores. Vencer resistências e tabus, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, é o maior obstáculo para a expansão desse tipo de iniciativa.
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CPM Braxis