Tendências 2009
A onda verde vai desbotar?
A queda dramática no preço do petróleo vai ter impacto na busca por novas fontes energéticas - mas a inovação não deve parar
Por Marcelo Onaga
Revista Exame – 31/12/2008
Depois de um começo de ano animador para o setor de energias renováveis, com aumento nos volumes de investimento em fontes como biocombustíveis, eólica, solar e biomassa, os investidores e produtores das chamadas energias alternativas encerraram 2008 com um gosto amargo na boca - e o cenário deve ser ainda mais difícil em 2009. O desânimo que tomou conta do setor foi provocado, em grande parte, pela forte queda nos preços do petróleo a partir de setembro, quando eclodiu a crise financeira mundial. Os preços do barril atingiram impensáveis 147 dólares no meio do ano e tornaram atraentes os investimentos em tecnologias como a dos painéis solares, mas despencaram para cerca de 40 dólares em dezembro. Para analistas do setor - uma categoria que por ora anda em baixa - o preço do barril deve ficar na faixa de 45 dólares em 2009. "Nesse nível de preço, fica difícil pensar em energias alternativas no curto prazo", diz o biólogo Fernando Reinach, diretor da Votorantim Novos Negócios e um dos maiores especialistas em energia alternativa do país. Abandonar o vilão do aquecimento global é um objetivo nobre - mas, ao que tudo indica, cada vez menos investidores estarão dispostos a financiar essa empreitada.
Além da queda dramática do preço do petróleo, o ano de 2009 vai ser de pouco crédito. E, sem dinheiro e disposição para correr riscos, é muito difícil fazer decolar a maioria das energias renováveis em estudo hoje. De acordo com a empresa de consultoria britânica New Energy Finance, especializada em energia, os investimentos em fontes renováveis chegaram a 142 bilhões de dólares em 2008, uma queda de 4% na comparação com o ano anterior. "Para 2009, a tendência é que a queda se acentue", diz Camila Ramos, analista da empresa no Brasil. Os números refletem o comportamento dos fundos de capital de risco estrangeiros, mas o mesmo fenômeno começa a ser observado por aqui. Está sumindo o dinheiro de quem entrou na onda por oportunismo. Até a primeira metade de 2008, o interesse por usinas de etanol era enorme. No segundo semestre, o sinal se inverteu: empresas de médio porte, como o grupo João Lyra e a Companhia Albertina, entraram em processo de recuperação judicial, e outras grandes companhias estão muito endividadas. Todas as indicações são de que o movimento vai continuar refluindo de forma severa em 2009. Com poucas perspectivas de que o etanol se torne uma commodity negociada em bolsas internacionais e uma produção maior do que a demanda mundial projetada para o próximo ano, o cenário é pouco animador.
O cenário é ruim, mas não é de caos. Não se imagina que programas de desenvolvimento de energias renováveis sejam deixados de lado de uma hora para outra, como aconteceu com o Proálcool nos anos 80. Naquela época, o preço do barril do petróleo despencou, e os usineiros, sem subsídios do governo, passaram a usar a cana para produzir açúcar. Os carros movidos a álcool tornaram-se um péssimo negócio, e boa parte da frota foi convertida para rodar com gasolina. Os tempos, porém, eram outros. Não havia a ameaça do aquecimento global, e a preocupação com o dano causado pela queima de combustíveis fósseis era algo restrito a acadêmicos e a um nascente movimento ambientalista. Hoje, a pressão pela preservação do meio ambiente já começa a provocar profundas mudanças estruturais em algumas das indústrias mais tradicionais do planeta, como a de automóveis. A demanda por veículos menos poluentes foi um dos pontos que levaram as montadoras americanas à pior crise da história. Ao mesmo tempo, fabricantes de veículos híbridos, que queimam menos combustível, ganharam mercado.
A viabilidade financeira das novas fontes de energia é essencial, mas haverá uma pressão crescente para que governos subsidiem pelo menos parte do desenvolvimento de alternativas energéticas limpas. Durante a campanha, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, prometeu iniciar um programa de redução das emissões americanas em 80% até 2050. Obama nomeou o Nobel de Física Steve Chu para o cargo de secretário de energia de seu governo. Chu é um defensor declarado de fontes renováveis de energia, e sua escolha mostra o comprometimento do próximo presidente americano com o tema. Poucos duvidam que o compromisso americano com o tema é essencial para que as tecnologias de energias renováveis tenham impacto global. Outro alento é o fato incontornável de que o consumo energético mundial vai continuar crescendo, independentemente do preço do barril de petróleo ou dos humores das bolsas. Segundo uma estimativa da Agência Internacional de Energia, serão necessários 26 trilhões de dólares em investimentos até 2030 para satisfazer a demanda mundial. As empresas do setor serão responsáveis por apenas metade desse valor. O restante, calcula a AIE, virá de novas empresas e também dos governos.
No Brasil, além do impacto esperado no setor de etanol, deve haver uma considerável desaceleração no desenvolvimento de campos eólicos, na utilização de bagaço de cana para a geração de eletricidade e nos investimentos em geração solar. Nos leilões de energia realizados em 2008, os preços oferecidos pelo governo não atraíram os produtores - e o enorme potencial de produção das hidrelétricas, principal fonte de eletricidade do país, é um complicador a mais. Diante da crise, não deverá haver aumento no preço e, conseqüentemente, os projetos deverão ser revistos. "Mas não há bem que seja eterno, assim como não há mal que não se acabe", diz o economista Oscar Pimentel, consultor na área de energia. O petróleo continua sendo uma fonte de energia finita, e as fontes renováveis serão necessárias no futuro. Resta saber como será a travessia durante o período de turbulência.
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Além da queda dramática do preço do petróleo, o ano de 2009 vai ser de pouco crédito. E, sem dinheiro e disposição para correr riscos, é muito difícil fazer decolar a maioria das energias renováveis em estudo hoje. De acordo com a empresa de consultoria britânica New Energy Finance, especializada em energia, os investimentos em fontes renováveis chegaram a 142 bilhões de dólares em 2008, uma queda de 4% na comparação com o ano anterior. "Para 2009, a tendência é que a queda se acentue", diz Camila Ramos, analista da empresa no Brasil. Os números refletem o comportamento dos fundos de capital de risco estrangeiros, mas o mesmo fenômeno começa a ser observado por aqui. Está sumindo o dinheiro de quem entrou na onda por oportunismo. Até a primeira metade de 2008, o interesse por usinas de etanol era enorme. No segundo semestre, o sinal se inverteu: empresas de médio porte, como o grupo João Lyra e a Companhia Albertina, entraram em processo de recuperação judicial, e outras grandes companhias estão muito endividadas. Todas as indicações são de que o movimento vai continuar refluindo de forma severa em 2009. Com poucas perspectivas de que o etanol se torne uma commodity negociada em bolsas internacionais e uma produção maior do que a demanda mundial projetada para o próximo ano, o cenário é pouco animador.
O cenário é ruim, mas não é de caos. Não se imagina que programas de desenvolvimento de energias renováveis sejam deixados de lado de uma hora para outra, como aconteceu com o Proálcool nos anos 80. Naquela época, o preço do barril do petróleo despencou, e os usineiros, sem subsídios do governo, passaram a usar a cana para produzir açúcar. Os carros movidos a álcool tornaram-se um péssimo negócio, e boa parte da frota foi convertida para rodar com gasolina. Os tempos, porém, eram outros. Não havia a ameaça do aquecimento global, e a preocupação com o dano causado pela queima de combustíveis fósseis era algo restrito a acadêmicos e a um nascente movimento ambientalista. Hoje, a pressão pela preservação do meio ambiente já começa a provocar profundas mudanças estruturais em algumas das indústrias mais tradicionais do planeta, como a de automóveis. A demanda por veículos menos poluentes foi um dos pontos que levaram as montadoras americanas à pior crise da história. Ao mesmo tempo, fabricantes de veículos híbridos, que queimam menos combustível, ganharam mercado.
A viabilidade financeira das novas fontes de energia é essencial, mas haverá uma pressão crescente para que governos subsidiem pelo menos parte do desenvolvimento de alternativas energéticas limpas. Durante a campanha, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, prometeu iniciar um programa de redução das emissões americanas em 80% até 2050. Obama nomeou o Nobel de Física Steve Chu para o cargo de secretário de energia de seu governo. Chu é um defensor declarado de fontes renováveis de energia, e sua escolha mostra o comprometimento do próximo presidente americano com o tema. Poucos duvidam que o compromisso americano com o tema é essencial para que as tecnologias de energias renováveis tenham impacto global. Outro alento é o fato incontornável de que o consumo energético mundial vai continuar crescendo, independentemente do preço do barril de petróleo ou dos humores das bolsas. Segundo uma estimativa da Agência Internacional de Energia, serão necessários 26 trilhões de dólares em investimentos até 2030 para satisfazer a demanda mundial. As empresas do setor serão responsáveis por apenas metade desse valor. O restante, calcula a AIE, virá de novas empresas e também dos governos.
No Brasil, além do impacto esperado no setor de etanol, deve haver uma considerável desaceleração no desenvolvimento de campos eólicos, na utilização de bagaço de cana para a geração de eletricidade e nos investimentos em geração solar. Nos leilões de energia realizados em 2008, os preços oferecidos pelo governo não atraíram os produtores - e o enorme potencial de produção das hidrelétricas, principal fonte de eletricidade do país, é um complicador a mais. Diante da crise, não deverá haver aumento no preço e, conseqüentemente, os projetos deverão ser revistos. "Mas não há bem que seja eterno, assim como não há mal que não se acabe", diz o economista Oscar Pimentel, consultor na área de energia. O petróleo continua sendo uma fonte de energia finita, e as fontes renováveis serão necessárias no futuro. Resta saber como será a travessia durante o período de turbulência.
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